O otimismo do BC

O Relatório de Inflação do primeiro trimestre, divulgado ontem pelo Banco Central (BC), contém previsões relativamente otimistas, embora não tanto quanto as do Ministério da Fazenda. O BC trabalha com dois cenários: no primeiro, a crise internacional continua em 2010; no segundo, termina em 2009, devendo-se, então, temer uma retomada da inflação. O BC atribui maior probabilidade ao primeiro cenário, e é sobre ele que constrói suas previsões.Elas estão centradas num crescimento do consumo das famílias, de 1,6%, e do governo, de 2,4%. Com isso, prevê-se um crescimento do PIB, em 2009, de 1,2%, bem abaixo da estimativa do governo, de 2,5%, mas acima da última previsão do mercado, de crescimento zero.Esse relativo otimismo parece se basear essencialmente no plano habitacional do governo, uma vez que considera um crescimento da construção civil de 2,7% (ante 8,9% no ano passado), o que permitiria manter em 0,2% a Formação Bruta de Capital Fixo apesar de uma queda de 1,6% da indústria de transformação.Cabe perguntar se o consumo das famílias, estimado a partir de um crescimento de 2,5% da massa salarial, poderá se verificar e, mais ainda, se o plano habitacional terá o sucesso previsto pelo BC.Um fato positivo nas previsões do BC é a queda da inflação, que deverá ficar abaixo do centro da meta fixada pelo Conselho Monetário Nacional. Isso permitiria uma redução progressiva da taxa Selic e, ao mesmo tempo, do custo do crédito, embora o BC não esconda sua preocupação com o fato de que são as pessoas jurídicas que mais sofrem com a falta de crédito num contexto em que se verifica o que o Relatório de Inflação chama de "protecionismo financeiro". Mesmo assim, as autoridades monetárias consideram que a redução da taxa de juros favoreceria uma revitalização do mercado de capitais.No caso das contas externas, o Relatório admite que a crise internacional poderá contribuir para uma redução do déficit das transações correntes, estimado em US$ 16 bilhões, valor que poderá ser coberto por uma entrada de US$ 27,7 bilhões na conta financeira.O BC considera que, até agora, a crise internacional teve um efeito benigno sobre a economia brasileira. Isso talvez explique seu relativo otimismo.No entanto, parece-nos que está atribuindo um papel exagerado ao programa habitacional e à boa administração das finanças públicas - o que até agora não está se verificando.

, O Estadao de S.Paulo

31 de março de 2009 | 00h00

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