O País vulnerável

O Brasil está muito mal preparado para enfrentar novas turbulências no mercado financeiro - consequências prováveis da próxima alta dos juros americanos -, segundo os critérios da diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde. Os países com desempenho melhor em episódios anteriores, disse a diretora, já haviam reduzido suas vulnerabilidades. Com maior crescimento, contas externas mais fortes, inflação menor e mercados financeiros mais líquidos, esses países foram capazes de enfrentar a instabilidade, acrescentou. A economia brasileira vai muito mal na maior parte desses quesitos. Cresceu pouco nos últimos anos e poderá passar por uma severa contração econômica em 2015. Sua inflação anual se aproxima de 8%, o déficit em transações correntes continua acima de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) e o governo tem de vencer forte oposição política para avançar no conserto das finanças públicas.

O Estado de S. Paulo

19 Março 2015 | 06h44

A vulnerabilidade do Brasil é indiscutível e fica mais evidente quando se levam em conta as condições listadas pela diretora do FMI. Nenhum país foi apontado como vulnerável, até porque cada governo, supõe-se, deve ser capaz de avaliar a situação da economia nacional. Ela só mencionou o Brasil, juntamente com a Coreia, o Uruguai, a Indonésia e o Peru, ao relacionar políticas, com vários graus de sucesso, usadas a partir de 2008 para conter a volatilidade financeira e cambial.

A diretora do FMI comentou os prováveis efeitos da mudança da política monetária americana durante viagem à Índia, um dos países com perspectiva de maior expansão econômica neste ano - provavelmente acima de 7%. O produto global, segundo Lagarde, pode crescer 3,5% em 2015 e 3,7% em 2016. No mundo rico, o avanço será liderado por Estados Unidos e Reino Unido. A recuperação deverá continuar na União Europeia e no Japão, mas ainda lentamente e de forma insegura. Para a Índia, ajudada pela queda do preço do petróleo e fortalecida por boas políticas - avaliação do FMI -, a previsão é de um desempenho brilhante.

O vigor da economia americana, a maior do mundo, estimula o comércio global e a produção de outros países, mas também pode produzir instabilidade financeira. A política monetária dos EUA, frouxa durante vários anos, vem sendo apertada gradualmente.

A mudança deve incluir uma alta de juros ainda este ano e isso deve resultar em condições mais apertadas nos mercados financeiros. Uma das consequências previsíveis, a valorização do dólar, já vem ocorrendo. Alterações nos fluxos de investimento também são prováveis e isso é mais um motivo de preocupação para os emergentes, como indicou a diretora do FMI.

Se os bancos centrais dos Estados Unidos e de outros países avançados comunicarem seus planos com clareza e eficiência, será possível atenuar os riscos de instabilidade nos mercados, disse Lagarde. Também se pode pensar em outras formas de cooperação, acrescentou, mas seu pronunciamento enfatizou principalmente a necessidade de preparação dos emergentes para os possíveis choques.

Esse é o ponto mais importante, de fato, e nenhum chefe de instituição internacional precisaria chamar a atenção para ele, exceto para cumprir um papel político. Os dirigentes dos grandes bancos centrais conduzirão suas políticas - de aperto nos EUA, de afrouxamento na zona do euro - segundo julguem conveniente, sem esperar a preparação dos demais países. No máximo, farão a gentileza de comunicar suas intenções com suficiente clareza e razoável antecedência.

É bom levar a sério esse dado. Há uma mudança global e nenhum governo vai adiar decisões à espera do entendimento entre políticos brasileiros. Quanto mais desajustada a economia, maior sua vulnerabilidade. O Brasil, repita-se, vai mal por causa de erros internos, embora a presidente atribua os problemas locais a causas externas. Se o ajuste se atrasar, as mudanças no cenário internacional poderão, de fato, prejudicar o País, mas a culpa real, como tem sido a regra, será mesmo dos brasileiros.

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