O papa em Israel

Em sua obra Contra o Fanatismo, Amós Oz conta que sua "sábia avó" explicou a diferença entre um judeu e um cristão. "Veja só", disse ela, "os cristãos acreditam que o Messias já esteve aqui e que certamente voltará algum dia. Os judeus sustentam que o Messias ainda está por vir.""Já houve", observou a sábia avó do romancista israelense, "tanta raiva, perseguição, tanto derramamento de sangue, ódio a respeito disso... Por quê? Se o Messias vier e disser ?oi, é muito bom revê-los?, os judeus vão ter de reconhecer o seu engano. Se, de outro modo, o Messias chegar dizendo ?muito prazer, é um prazer conhecê-los?, todo o mundo cristão terá de pedir desculpas aos judeus. Entre o dia de hoje e esse momento, apenas viva e deixe viver" (páginas 38 e 39).Ontem o papa Bento XVI iniciou uma visita de cinco dias a Israel. Essa viagem carrega o potencial de transmitir uma mensagem inequívoca sobre a importância de se consolidar uma relação de reconhecimento entre católicos e judeus.Ao longo da História, essas duas comunidades viveram momentos de aproximação e distanciamento. Durante a Idade Média fortaleceu-se um sentimento antijudaico baseado em absurdas afirmações de responsabilidade coletiva da comunidade judaica pela crucificação de Jesus (o deicídio) ou de que os judeus usavam sangue de crianças cristãs para preparar seus pães sem fermento (matsót). Entre os episódios mais trágicos, destacam-se a expulsão dos judeus da Espanha em 1492, durante a Inquisição ibérica, e as Cruzadas (séculos 11-13).No século 20, a aproximação entre essas duas comunidades recebeu um grande incentivo com a publicação da Declaração Nostra Aetate pelo papa Paulo VI, durante o Concílio Vaticano II, convocado ainda no papado de João XXIII, que afirma em seu parágrafo 4º: "Sendo assim tão grande o patrimônio espiritual comum aos cristãos e aos judeus, este sagrado Concílio quer fomentar e recomendar entre eles o mútuo conhecimento e estima, os quais se alcançarão, sobretudo por meio dos estudos bíblicos e teológicos e com os diálogos fraternos." Somente em dezembro de 1993 o Estado de Israel foi formalmente reconhecido pelo Vaticano.Durante o papado de João Paulo II, as relações entre católicos e judeus viram o seu melhor momento. Karol Józef Wojtyla tinha uma história pessoal, desde sua infância na cidade de Wadowice, com amigos judeus poloneses e dedicou muita energia à consolidação dos princípios lançados pela Nostra Aetate. Entre os momentos mais marcantes de sua história com a comunidade judaica, destaca-se a visita que fez à sinagoga de Roma (1986).Desde que assumiu a posição de papa, Bento XVI participou de alguns momentos de tensão com a comunidade judaica. A autorização para que a liturgia da Sexta-Feira Santa, que incentiva a conversão de judeus ao catolicismo, fosse novamente utilizada causou insatisfação de líderes israelitas. A reintegração do bispo lefebvriano Richard Williamson foi amplamente criticada, até mesmo por líderes de fora da comunidade judaica, por haver ele mitigado a importância do Holocausto, afirmando que teriam morrido "apenas" 300 mil judeus, e não 6 milhões, e que as câmaras de gás nunca existiram. Angela Merkel, chanceler da Alemanha, pediu ao papa Bento XVI que deixasse "bem claro" que rejeita a negação do Holocausto. Recentemente, o apoio do Vaticano à conferência contra o racismo, em Genebra, também disparou críticas ao papa atual, já que Israel teria preferido que o Vaticano deixasse de apoiar um evento que teria a participação do iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Outro assunto polêmico é a beatificação de Pio XII, que viveu durante o apogeu do regime nazi-fascista e foi considerado omisso por parte significativa dos historiadores.No Brasil, vivemos um momento extraordinário de aproximação entre católicos e judeus, o diálogo encontrou eco definitivo nas pluralistas terras brasileiras. Mantenho pessoalmente uma relação fraterna com representantes destacados da comunidade católica brasileira, como dom Raymundo Damasceno Assis, arcebispo de Aparecida e presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), e dom Odilo Pedro Scherer, cardeal-arcebispo de São Paulo. Estes homens, dentre tantos outros religiosos brasileiros, são verdadeiramente comprometidos com o diálogo e o respeito às diversidades.O fanatismo é um fenômeno preocupante nas diversas comunidades religiosas. Assim como falsos religiosos manipulam as Escrituras Sagradas para propagar o ódio e a perseguição, a religião pode ser a fonte inspiradora para uma atitude pluralista. Líderes religiosos responsáveis têm um potencial valioso para o estabelecimento de pontes entre diversos grupos. A religião deve ser uma ferramenta a serviço da construção de uma sociedade de paz.Nenhuma religião apregoa o ódio e a destruição. Líderes irresponsáveis retiram citações milenares de seu contexto histórico para corroborarem seus interesses políticos por meio de mensagens fanáticas. O Oriente Médio conheceu muitos anos de intolerância e, por esse motivo, os encontros inter-religiosos não poderiam ocorrer em terras mais apropriadas.Assim, a visita de Bento XVI a Israel, neste momento, representa uma verdadeira oportunidade de aproximação. Trata-se de uma chance valiosa de reforçar as bases para um diálogo profundo e sincero. Que possamos nos inspirar por histórias fascinantes de amor ao próximo como aquela da avó de Amós Oz, que, segundo a avaliação do próprio escritor, "era definitivamente imune ao fanatismo. Conhecia o segredo de conviver com situações em aberto, com conflitos não resolvidos, com a diferença do outro." Michel Schlesinger, advogado formado pela Faculdade de Direito da USP, é rabino da Congregação Israelita Paulista, ordenado pelo Instituto Rabínico Schechter de Jerusalém

Michel Schlesinger, O Estadao de S.Paulo

12 de maio de 2009 | 00h00

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