O papa, os pobres e os economistas

O papa Francisco está na ordem do dia. Não foi só sua visita ao Brasil que teve sucesso retumbante. Com todo o entusiasmo que temos pelo ano-novo, nunca houve um réveillon que conseguisse reunir 3 milhões de pessoas em Copacabana, como ocorrido em julho de 2013. Um papa simples, capaz de segurar sua pasta ao subir as escadas do avião na vinda ao Brasil e na volta a Roma. Não beijou o solo brasileiro ao chegar, como fazia João Paulo II, mas distribuiu beijos e abraços calorosos a quem chegou suficientemente próximo. Zuenir Ventura reconheceu-lhe a humildade, para perguntar a seus leitores em seguida, com verve carioca, se conheciam algum argentino humilde além dele. O próprio papa, tomado pelo espírito mordaz carioca, nos deu uma cutucada: "Deus já é brasileiro e vocês ainda querem um papa brasileiro?!".

GASTÃO REIS RODRIGUES PEREIRA, O Estado de S.Paulo

02 Janeiro 2015 | 02h05

Sempre que fez uso da palavra, utilizou uma linguagem simples e direta, até mesmo coloquial: "Deus bota fé na juventude!". A concretude do conteúdo veio sempre à frente dos floreios da forma, não se deixando enganar por palavras bonitas, mas vazias. Essa dose brutal de sinceridade foi logo percebida por todos os participantes da Jornada Mundial da Juventude. Peregrinos e peregrinas de 177 países, brasileiras e brasileiros deixaram-se encantar por esse papa diferente e muito especial. Um papa que combina a humildade e a pobreza de São Francisco com a disciplina típica dos jesuítas. E que continua ativo, marcando recentemente dois gols de placa: intermediou o reatamento das relações diplomáticas entre Cuba e EUA e implementou reformas profundas na Igreja Católica, tanto na área financeira quanto na zona de conforto em que estava encastelada a Cúria Romana.

Não é novidade a opção preferencial da Igreja Católica pelos pobres. O fato novo foi o papa Francisco reassumir esse compromisso com vigor todo especial diante do mundo e da própria Cúria Romana, que por vezes confunde sua autopreservação com a do espírito cristão, missão maior da Igreja. São duas coisas muito distintas, que, quando confundidas, provocaram desvios graves na atuação da Igreja ao longo dos séculos. Opção pelos pobres, obviamente, não significa necessariamente opção pela pobreza, em especial quando condições básicas da dignidade humana não são atendidas nas áreas da educação, saúde, moradia e transporte decentes.

Cabe agora perguntar: como entram os economistas nesse quadro, qual a visão deles em relação aos pobres e à pobreza? Na verdade, o título do livro de Adam Smith que inaugurou a economia como ciência autônoma diz muito sobre o assunto: Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações. É evidente a preocupação dele em entender os caminhos a serem percorridos pelas nações para se livrarem dos males da pobreza. Em 1776, ano em que o livro foi publicado, a pobreza flagelava a imensa maioria da humanidade, com seus piores efeitos. Quem viveu naqueles tempos e tinha um mínimo de sensibilidade não podia ficar indiferente aos dramas dela oriundos, como foi o caso de Adam Smith. Suas respostas foram suficientemente sólidas para terem validade dois séculos depois, quando suas ideias voltaram a ser postas em prática na antiga URSS e na China ao se darem conta de que a economia de comando totalmente planificada não funcionava.

É famosa a recomendação de Adam Smith para cuidarmos do nosso próprio umbigo. Ao afirmar que não devemos o nosso pão de cada dia à bondade do padeiro, mas ao lucro que ele persegue, parece fazer o elogio do egoísmo. Mas não é bem isso. Segundo ele, ao fazermos, individualmente e com diligência, nosso dever de casa, a sociedade como um todo acaba se beneficiando. Ainda assim, ficou o sabor do "cada um por si e Deus por todos". A coisa só mudou, em meados do século 20, quando surgiu o conceito de equilíbrio de John Nash, que provava matematicamente que o trabalho articulado em equipe gerava melhores frutos para a sociedade. "Cada um pelos demais e Deus por todos" passou a ser algo possível no âmbito da economia, até então conhecida como a ciência sombria, que passou a ter uma face ensolarada.

Resta ainda uma última questão um tanto espinhosa. Se, de um lado, os economistas buscam livrar a humanidade da pobreza, de outro, parece haver por parte da Igreja essa preocupação com os pobres como membros permanentes de espécie humana ontem, hoje e amanhã. Ou seria o caso de entendermos a pobreza num conceito mais amplo que nos livra do peso excessivo, sob diversos aspectos, com que atravessamos a existência? Ou a mensagem seria sermos mais tendo menos? Essa pobreza num sentido de leveza diante da vida, de ser mais, ao invés de ter mais, pode ser um caminho a seguir se levarmos em conta a questão da sustentabilidade do próprio planeta.

A economia do conhecimento, típica da atual fase de desenvolvimento da humanidade, nos abre caminhos novos quando se trata da habitual troca entre agentes econômicos. Antes, a troca pressupunha algo físico: um lápis trocado por uma borracha. Você levava a borracha e deixava de possuir o lápis. Na troca de conhecimento, aquilo que você dá continua com você e ainda enriquece o outro agente econômico que o recebe. Parece que a humanidade está saindo de um mundo de escassez para penetrar num outro de abundância resultante do fácil acesso à informação e ao conhecimento, o que até então mantinha considerável distância econômico-financeira entre pessoas e povos.

De toda forma, o acesso ao consumo, mesmo que básico, de parcelas cada vez mais amplas da humanidade representa uma sobrecarga para os recursos do planeta, a serem usados de modo cada vez mais responsável. Aqui certamente há espaço para a frugalidade, aquela pobreza (humildade) de espírito de que nos fala Jesus Cristo no Sermão da Montanha e que a sua Igreja, na pessoa do papa Francisco, combate ainda hoje ao condenar o consumismo desenfreado. Tomara que estejamos caminhando para convergências positivas!

EMPRESÁRIO E ECONOMISTA

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