O papel moderador de Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está preocupado com o futuro da União de Nações Sul-Americanas (Unasul). Ao final da reunião de Quito - convocada para coincidir com a posse do reeleito presidente Rafael Correa -, Lula observou que os 12 países-membros precisam chegar a um acordo sobre o que pretendem do grupo - "senão deixaremos de ser um processo de integração para sermos só um grupo de amigos".Nem tanto. A reunião mostrou que o grupo é tudo, menos unido, e que o relacionamento entre alguns de seus membros é perigosamente conflituoso. O campo foi dividido em torno do uso de bases colombianas por militares norte-americanos, pondo, de um lado, a Venezuela, o Equador e a Bolívia - os bolivarianos que não admitem a presença de umas centenas de ianques na região - e, de outro, a Colômbia, o Peru, o Chile, o Paraguai e o Uruguai - que entendem ser o caso das bases um problema soberano da Colômbia e dos Estados Unidos. O Brasil e a Argentina reconhecem que se trata de assunto interno, mas querem garantias de que os militares americanos não agirão fora do território colombiano.Divididos assim, os países-membros da Unasul resolveram fazer aquilo que os manuais de diplomacia recomendam: ignorar o tema até mesmo na declaração final do encontro. O problema é que o presidente Hugo Chávez não respeita protocolos. Ao final da reunião, tomou inesperadamente a palavra e fez um discurso ridiculamente radical contra o acordo entre Colômbia e Estados Unidos. "A Venezuela se sente ameaçada", disse ele. "Isso pode causar uma guerra" - para a qual ele disse que já está se preparando. O despautério de Chávez contagiou os seus epígonos bolivarianos e Rafael Correa acrescentou que o acordo das bases trará "um grande perigo para a região", enquanto Evo Morales requeria que a Unasul se declarasse em "estado de emergência" - o que quer que seja que isso signifique.Quem pôs água na fervura foi o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Desde que, há dias, o caudilho Hugo Chávez se disse ameaçado pela presença de militares americanos na Colômbia - numa bem-sucedida manobra para desviar a atenção da opinião pública internacional dos lançadores de foguetes venezuelanos encontrados em poder das Farc e do fechamento das primeiras 34 rádios independentes, de um total de 240 -, o presidente Lula colocou a diplomacia brasileira a seu serviço. Foi só depois que o assessor de segurança nacional do presidente Barack Obama visitou Brasília, que o governo brasileiro reconheceu, publicamente, que o acordo era um assunto que só dizia respeito a Bogotá e Washington, mas, mesmo assim, exigia garantias de que as forças americanas não agiriam fora do território colombiano.Em Quito, de certo alarmado com os tambores de guerra do bolivarianismo, Lula fez-se ouvir pelo bom senso de suas considerações e propostas. Em primeiro lugar, tratou de apagar o incêndio: "Não consigo ver a possibilidade de aumentar os conflitos na nossa região, num momento em que tudo indica que, quanto mais paz nós tivermos, mais chances teremos de recuperar o tempo perdido e dar aos nossos povos a melhoria de vida de que eles precisam." Depois, sugeriu que o caso das bases seja discutido em foro próprio, com a presença imprescindível do presidente da Colômbia, ressaltando que "o presidente Uribe não poderá se sentar na reunião como se fosse réu". Para terminar, sugeriu que os presidentes da Unasul aproveitem a abertura da Assembleia-Geral da ONU, em setembro, para marcar um encontro com o presidente Barack Obama, com quem discutiriam a política americana para a América Latina. Na próxima semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve telefonar para Obama para conversar sobre o assunto. É muito pouco provável que o presidente dos Estados Unidos, dado o clima hostil que Chávez e seus compañeros criaram, aceite um encontro dessa natureza. O presidente Álvaro Uribe, por sua vez, já avisou que não considera oportuno que a Colômbia participe de uma reunião de ministros da Defesa e das Relações Exteriores da Unasul, por causa do tom agressivo usado por Rafael Correa.O fato é que, em Quito, Lula obteve uma trégua. Muito mais difícil será convencer Chávez de que ele manda na Venezuela, mas ainda não dita as ordens na Colômbia e, muito menos, nos Estados Unidos.

, O Estadao de S.Paulo

12 de agosto de 2009 | 00h00

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