O paradoxo da América Latina

Participei em Washington do lançamento do novo livro do celebrado professor de Economia de Stanford Eric Hanushek, The Knowledge Capital of the Nations (O Capital Cognitivo das Nações, em tradução livre). Nele Hanushek defende a tese de que não basta ampliar o acesso à educação ou aumentar os anos de escolaridade média de um país para que haja crescimento de longo prazo. O fundamental éassegurar aprendizagem.

Claudia Costin, O Estado de S.Paulo

10 Fevereiro 2016 | 03h00

Para justificar sua tese o autor usa dados de escolaridade média da população e seu impacto no crescimento de 1960 a 2000 e compara com o impacto do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), organizado pela OCDE e aplicado a jovens de 15 anos, e do Tendências Internacionais em Matemática e Ciências (Timss), um teste mais centrado no currículo de cada país, duas importantes avaliações que medem a aprendizagem de alunos em diversos países. A comparação evidencia que, apesar de mais anos de escolaridade resultarem em maior salário para o indivíduo, isso não se traduz em taxa maior de crescimento de longo prazo para o país.

Evidentemente, o investimento em educação de qualidade não deve ser justificado apenas por sua importância para o crescimento. Nos chamados Objetivos do Milênio, aprovados pela ONU, fica muito clara a consagração da educação como um direito de cada criança e adolescente. Mas não perceber o indiscutível vínculo entre educação e crescimento e não atuar para mudar a realidade de índices ainda inaceitáveis de aprendizagem de nossos jovens pode ser uma das razões por que o Brasil, mesmo em tempos de bonança tem apresentado índices de crescimento modestos.

Para tornar mais clara sua tese Hannushek compara a América Latina à Ásia do Leste. Um observador transportado de volta a 1960, argumenta, poderia pensar que a América Latina estaria iniciando um ciclo de significativo e persistente crescimento econômico. Tanto o nível de renda quanto a escolaridade média da população (com exceção do Brasil, no segundo caso) eram bem superiores aos da Ásia do Leste. Mas essa não é a realidade dos anos recentes. Estive recentemente na Coreia e não pude deixar de ficar maravilhada por esse país que, marcado no passado por expressiva pobreza, invadido com frequência por seus vizinhos, em guerras que devastaram parte de seu território, é hoje considerado um dos mais desenvolvidos do mundo. O mesmo se pode dizer de outros países da região que também passaram nos anos 1940-50 por guerras e pobreza extrema e agora são economias sólidas.

Por que a América Latina não seguiu padrão semelhante? Essa é a pergunta de Hanushek.

Por muitas razões, algumas associadas à força das instituições e à possibilidade de geração de empregos. Mas, para Hannushek, 80% do crescimento econômico de longo prazo pode ser explicado pela qualidade da educação. Não pela qualidade tomada em sentido genérico, por vezes confundida com o gasto em educação, mas pela medida da aquisição de competências relevantes de sua população. A melhor medida seriam os resultados de aprendizagem, medidos em avaliações internacionais.

E como se sai a América Latina no Pisa? Nada bem, com a honrosa exceção do Chile, que mesmo assim ainda conta com porcentual grande de jovens que estão abaixo dos níveis mínimos de letramento e raciocínio matemático. A Ásia do Leste, em contrapartida, vem disputando as melhores colocações no Pisa, com resultados de crescimento de longo prazo igualmente expressivos.

Mas a questão é como melhorar de forma expressiva a aprendizagem dos alunos. Muitas das medidas adotadas por Xangai ou pela Coreia não são replicáveis, todavia há quase um consenso entre pesquisadores de que o mais importante para melhorar a educação é atrair e reter bons professores, formados para a atividade docente, e não apenas para serem estudiosos de educação, dar-lhes materiais de apoio adequados, uma definição clara de expectativas de aprendizagem que permitam equidade no sistema, formação continuada que contemple tempo de trabalho colaborativo entre mestres e observação do trabalho em sala de aula de colegas e um mecanismo de reforço escolar para as crianças e jovens que aprendem em ritmo diferente.

Evidentemente, há outras tarefas para assegurar uma educação de qualidade a todos, mas sem essas medidas pouco se pode avançar na agenda da qualidade. O Brasil foi o país que mais progrediu em Matemática de 2003 a 2012 (os dados do Pisa de 2015 serão divulgados só em dezembro), mas ainda amarga a 58.ª posição entre 65 economias. Argentina, Colômbia e Peru estão atrás do Brasil no Pisa. Precisamos, como subcontinente, garantir que os jovens tenham condições de viver em países que crescem e geram empregos para os quais estejam preparados. Isso se torna particularmente importante dado o momento que muitos países da América Latina vivem em termos de transição demográfica: a taxa de dependência – ou seja, o número de dependentes por adulto em idade de trabalhar – caiu, pela queda na taxa de fecundidade das mulheres, mas deve em breve aumentar, em razão do crescente envelhecimento da população. Enquanto esse segundo movimento não ocorre, temos uma janela de oportunidade para assegurar um crescimento mais sustentável dos países.

E para que os jovens possam ter uma vida autônoma (em que, evidentemente, a empregabilidade é um elemento importante) e significativa, realizando seus sonhos, é importante que a escola seja interessante e possa dotá-los das competências de que necessitam no século 21. Daí a relevância da discussão em curso no Brasil sobre a Base Comum Nacional. Em outros termos, educação de qualidade deve se traduzir em que competências?

Essas são, sem dúvida, tarefas gigantescas para países que vivem imersos em suas crises de curto prazo e, por vezes, como no caso brasileiro, se esquecem de olhar para a frente e pensar no que se querem construir.

*CLAUDIA COSTIN É DIRETORA SÊNIOR GLOBAL DE EDUCAÇÃO DO BANCO MUNDIAL

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