O partido dos grotões

O resultado do primeiro turno da disputa presidencial mostrou que o PT colheu seus melhores resultados nas cidades cujos habitantes vivem em piores condições e que dependem, em sua maioria, do Bolsa Família. Em contraste, o partido sofreu importantes derrotas nas regiões mais desenvolvidas.

O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2014 | 02h05

Trata-se de um padrão que confirma a mudança do perfil do PT - de partido que nasceu como representante do operariado urbano e da elite intelectual de esquerda, passou a ser uma legenda que obtém o grosso de seus dividendos políticos a partir de seu investimento em políticas assistencialistas nas áreas mais pobres do País.

"No semiárido brasileiro, que se estende por sete Estados, está o coração eleitoral do PT", constatou o jornal francês Le Monde. O diário ouviu moradores de Lajedo, cidade do interior de Pernambuco em que 70% dos habitantes são beneficiários do Bolsa Família. Um deles disse ao jornal que o candidato que questionar o Bolsa Família vai "tocar fogo no País", refletindo a campanha do medo que o PT usou para reeleger a presidente Dilma Rousseff.

A fidelidade desses eleitores ao PT, ao menos no plano federal, ficou clara: Dilma foi vitoriosa em oito dos nove Estados do Nordeste. Sua única derrota foi em Pernambuco, onde foi superada por Marina Silva (PSB) - apoiada pela família de Eduardo Campos, o popular governador pernambucano que se lançou à Presidência tendo Marina como vice e cuja morte em acidente aéreo comoveu especialmente seu Estado. Mesmo assim, Dilma obteve 44,2% dos votos válidos no Estado, contra 48,05% de Marina.

Nos demais Estados da região, Dilma exibiu um desempenho impressionante. Enquanto na votação nacional a presidente terminou o primeiro turno com 41,6% dos votos válidos, seu apoio no Nordeste beirou os 70% - casos do Maranhão e do Ceará. Conforme mostrou o Estadão Dados, a região que compreende Maranhão, Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte deu a Dilma 67,8% dos votos, um crescimento de quase três pontos porcentuais em relação à eleição de 2010. Outros Estados nordestinos importantes, como a Bahia e a Paraíba, deram-lhe em torno de 60% dos votos.

Um desempenho semelhante se observa nos Estados do Norte. No Pará, Dilma levou 53,2% dos votos, contra 47,9% nas eleições de 2010.

Levantamento feito pelo jornal O Globo ilustra bem o perfil desse voto maciço em Dilma. Nos municípios em que mais pessoas recebem o Bolsa Família, concentrados em especial no Norte e no Nordeste, 73,1% dos eleitores escolheram a presidente no primeiro turno.

Quando o parâmetro é o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que utiliza indicadores sociais como saúde e educação, confirma-se que Dilma obtém melhores resultados em regiões menos favorecidas. Nos municípios com IDH baixo e muito baixo, a petista levou cerca de 70% dos votos.

À medida que a qualidade de vida melhora, a votação em Dilma diminui. Em municípios com IDH médio, a presidente ficou com 55,9% dos votos. O porcentual cai para 35,3% nas cidades com IDH alto e 25,2% nas com índice muito alto.

Assim, fica claro que o PT está cada vez mais dependente dos eleitores que recebem assistência do Estado nas regiões mais pobres do País. A formidável rede de benefícios montada pelos governos petistas desde 2003 transformou esses agradecidos beneficiários em apoiadores fiéis do PT.

No longo prazo, porém, tal política assistencialista só se sustenta se a economia for administrada de maneira competente - visando ao crescimento e à competitividade e gerando renda suficiente para ser distribuída - e se os que recebem o Bolsa Família tiverem chances efetivas de progredir, por meio de uma educação pública de qualidade e de uma assistência médica decente, tornando-se membros produtivos da sociedade. Como sob os governos petistas não acontece nem uma coisa nem outra, resta somente uma enorme clientela de eleitores pobres e desinformados que, dependentes dos caraminguás do Bolsa Família, formam a massa de votos de que se serve o PT a cada eleição.

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