O patrimonialismo e o inferno de Jefferson

Uma das primeiras obras da narrativa moderna é A Divina Comédia, de Dante Alighieri. Nela, retomando o Leitmotiv das obras medievais (o mundo do além), numa perspectiva individual que antecipa os relatos de viagens da literatura do Iluminismo, o florentino conta a visita que o seu personagem central – ele mesmo – faz ao mundo do além, dividido segundo a imaginação cristã em três cenários: o inferno, o purgatório e o paraíso. Pela mão do seu guia, o poeta latino Virgílio, Dante percorre os sombrios corredores do purgatório e os indescritíveis círculos do inferno. E da mão da sua amada, Beatrice, visita as fulgurantes escadarias e caminhos floridos do paraíso.

RICARDO VÉLEZ RODRÍGUEZ*, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2016 | 03h00

Destaca-se na bela poesia de Dante a perspectiva humana: os personagens que povoam o mundo do além ocupam posições relacionadas ao papel que desempenharam em relação à cidade do narrador, a sua amada Florença. Para os amigos, o céu; para os inimigos, o inferno, com a incômoda companhia do diabo em pessoa! Perspectiva bem moderna, aliás. Para os amigos, leia-se: os relacionados com a construção da polis dos nossos sonhos, a eterna lembrança da bem-aventurança. Para os que conspiraram contra o nosso ideal cívico, o inferno do esquecimento!

Pois bem, Roberto Jefferson, o presidente do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) condenado no mensalão, sai do inferno da penitenciária, perdoado pela Justiça, e se reintegra ao mundo dos vivos. A entrevista que concedeu recentemente ao Estado (1.º/4) dá conta do que ele viu e a memória das trevas fá-lo lembrar daquilo que constitui a essência do Estado patrimonial.

No clima escatológico que estamos vivendo, um fato salta à vista nessa entrevista. Nela, como numa revelação do que se passa nas entranhas do Estado patrimonial brasileiro, o ex-parlamentar, que assumirá novamente o seu mandato na Câmara dos Deputados, dá detalhes de como funciona o aparelho patrimonialista na alta política.

A fonte de financiamento das atividades do Estado patrimonial são as estatais. Sem elas não haveria bala na agulha para os aliciadores de fidelidades caninas aos donos do poder. Frisa Jefferson: “(A Petrobrás) sempre foi a empresa elite dos partidos mais poderosos. As estatais no Brasil são o braço financeiro das corporações sindicais e (dos) partidos. Quem financia partido são as estatais. (...) A estatal é a semente da corrupção no Brasil. Partidos disputam cargos nas estatais para seu financiamento. O que vão assaltar nos seis meses enquanto durar o processo de impeachment é uma loucura. Vai todo mundo querer fazer caixa, porque ela cai em seis meses. Cobra 100% de comissão aí!”.

Ora, a História moderna do Brasil mostra exatamente isso que Jefferson revela. Os processos modernizadores, desde o Estado getuliano até a contemporaneidade, têm naufragado justamente porque, potencializados pela produção de riqueza que o setor privado garantiu, as lideranças políticas terminaram desviando o caminho do progresso para garantirem uma ordem clientelística mantida à custa dos recursos que financiariam a definitiva entrada do Brasil na modernidade.

O Estado getuliano, pensado na rígida regra do estatismo castilhista, louvando-se, de outro lado, da experiência modernizadora de Mussolini na Itália, terminou carregando mundos e fundos no financiamento dos sindicatos dependentes do Estado, pensados como esteios da nova ordem. Os partidos getulianos nasceram da visão corporativista que arregimentou os apoiadores do regime, identificados com os que mantinham a sociedade organizada ao redor dos sindicatos e dos empresários organizados em torno ao Estado, presidido pelo Executivo tecnocrático.

Clima semelhante acabou afetando o regime militar de 1964, no final do ciclo, em meados dos anos 80 do século passado. A pesada estrutura sindical janguista, herdeira do getulismo, terminou sendo substituída pelo bipartidarismo artificial financiado pelas estatais, que, de um total de 90 no início do ciclo, pularam para 490 no final desse período. Esse estatismo levou o general Emílio Garrastazu Médici, em viagem presidencial ao Nordeste, a pronunciar a famosa frase: “Estado rico, país pobre”.

Caem os panos da representação da ópera-bufa em que se transformou a nossa República nestes tempos de lulopetismo cínico e o que vemos pela lente de Roberto Jefferson? Um panorama semelhante, justiça sendo feita ao passado, sem a lisura da maior parte dos militares no comando do navio, que terminaram remediados como entraram, descontados os espertalhões que se locupletaram ao redor das estatais e da própria Petrobrás, bem como nas secretarias chefiadas por técnicos militares, como a famosa Secretaria Especial de Informática (SEI), que vendeu cara a entrada das empresas ao mundo digital mediante licenças concedidas a preço de ouro.

Na festa iconoclasta e de cinismo explícito a que estamos assistindo, o Partido dos Trabalhadores (PT) deixou claro a que veio: foi para se locupletar a partir das estatais, beneficiando os que o apoiam e deixando na sombra do esquecimento (quando não do cemitério, como aconteceu com o prefeito de Santo André Celso Daniel) aqueles que ousaram colocar obstáculos de monta aos engenheiros da nova ordem que acabaria com a pobreza no Brasil.

A receita para o mal foi assinalada pelo próprio Roberto Jefferson na sua entrevista ao Estado: “Se queremos país moderno, vamos ter que fazer privatização, porque (ela) não vai permitir a concentração da corrupção”.

*RICARDO VÉLEZ RODRÍGUEZ É MEMBRO DO CENTRO DE PESQUISAS ESTRATÉGICAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA (UFJF), É PROFESSOR EMÉRITO DA ECEME E DOCENTE DA FACULDADE ARTHUR THOMAS, EM LONDRINA 

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