O pecado da omissão

O segundo turno deverá determinar o fim do PT como força política

* ALMIR PAZZIANOTTO PINTO, O Estado de S.Paulo

17 Outubro 2018 | 05h00

No formoso Sermão da Primeira Dominga do Advento, pregado na Capela Real em Lisboa, no ano de 1650, advertiu o padre Antonio Vieira: “A omissão é o pecado que com mais facilidade se comete e com mais dificuldade se conhece; e o que mais facilmente se comete e dificultosamente se conhece raramente se emenda”.

A frase do santo jesuíta, a mais poderosa inteligência de Portugal de todos os tempos, deve servir de alerta a quem decidiu conservar-se omisso e indiferente às eleições do próximo dia 28, quando estará em jogo o futuro da democracia brasileira. Frente a frente, submetendo-se ao escrutínio de 147 milhões de eleitores chamados a decidir o futuro da República, estarão o deputado federal Jair Bolsonaro, oficial da reserva do Exército, e Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, advogado, porta-voz e alter ego de Luiz Inácio Lula da Silva, o presidiário de Curitiba. 

O aparentemente impossível aconteceu. No primeiro turno Bolsonaro quase alcançou maioria absoluta; Fernando Haddad, na última semana correndo por fora, conseguiu a segunda colocação. Alguns dos supostos favoritos, como Ciro Gomes, Geraldo Alckmin e Marina Silva, foram avisados de que pertencem ao passado e devem abandonar antigos projetos de exercer a suprema magistratura da Nação.

Aos eleitores, antes de se decidirem, compete examinar o currículo dos dois finalistas e o histórico dos respectivos partidos. Jair Bolsonaro candidatou-se pelo Partido Social Liberal (PSL), em aliança com o Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB), ao qual coube indicar o candidato à Vice-Presidência, Hamilton Mourão, general da reserva. Fernando Haddad, apesar de relativamente jovem, tem longo passado como militante do Partido dos Trabalhadores (PT). Sua candidata à Vice-Presidência é Manuela d’Ávila, filiada ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), fundado em fevereiro de 1962 por João Amazonas, Diógenes Arruda, Pedro Pomar, Maurício Grabois. Desligando-se voluntariamente, ou afastados compulsoriamente, alguns dissidentes do Partido Comunista Brasileiro (PCB) criaram o PCdoB com o objetivo de “promover a derrubada do sistema capitalista e, através da revolução proletária, realizar a passagem para o socialismo”, conforme se lê no Dicionário Histórico Geográfico Brasileiro Pós-1930 (Ed. FGV-Cepdoc, 2.ª edição, 2001, vol. IV, pág. 4.280). Quem duvidar consulte o livro Combate nas Trevas - A esquerda brasileira: das ilusões perdidas à luta armada, de Jacob Gorender (Ed. Ática, 1987).

A história do PSL e do PRTB poderia ser escrita, até as eleições deste ano, numa única página. Passaram despercebidos, como meros figurantes, até o primeiro turno destas eleições. Seus dirigentes nunca foram protagonistas principais no teatro da política brasileira dos últimos anos. O mesmo não se poderá dizer do PT e do PCdoB. Fundado em 1980, por reduzido grupo de sindicalistas, o PT nasceu com a pretensão de monopolizar a representação das classes trabalhadoras. Seria uma espécie repaginada do antigo PCB, ou do fisiológico Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Durante anos seduziu a classe média alta, artistas, intelectuais, picaretas e oportunistas, com o discurso do combate à corrupção, ao fisiologismo, à pobreza, às desigualdades regionais e sociais. Não escondia forte pendor à violência, como instrumento de conquista do poder. Já o PCdoB assumia, ao lado de outros extremistas, a posição de partido revolucionário inspirado no velho stalinismo maoista. Rapidamente se tornou uma espécie de vanguarda do atraso.

A ascensão do PT ao governo revelou-lhe a verdadeira face e confirmou a frase de Pítaco de Mitilene: a ambição é insaciável. Com insaciável ambição de dinheiro, o PT e seus aliados investiram contra os cofres públicos, conforme revelariam os processos referentes ao mensalão e à Operação Lava Jato.

Durante 12 anos e alguns meses de regime petista a economia foi desbaratada; a política, aviltada; o País, desindustrializado; o Tesouro Nacional, o BNDES, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, a Petrobrás e os fundos de pensão, saqueados. Torrentes de dinheiro foram canalizadas para apoiar ditaduras africanas e latino-americanas. Não satisfeito, usou e abusou do aparelhamento do Estado para se consolidar no governo, ao qual procura retornar com o propósito de arrebatar definitivamente o poder, como declarou José Dirceu. 

O apego ao crime pode ser aferido pelo asilo concedido ao terrorista italiano Cesare Battisti pelo presidente Lula. Relembro que o facínora, natural de Sermoneta, na Itália, onde nasceu em 1954, depois de preso várias vezes como ladrão, em 1976 passou a integrar o grupo Proletários Armados do Comunismo (PAC), surgido das Brigadas Vermelhas. Acusado de assassinar quatro pessoas - Antonio Santoro, Pierluigi Torregiani, Lívio Sabatini e Andrea Campagna - e de deixar o filho deste último paraplégico, foi condenado pela Justiça italiana à prisão perpétua. O processo correu à revelia, em razão da fuga de Battisti. Após se esconder em vários países, foi preso no Brasil em 2007. Antecipando-se à decisão do pedido de extradição no Supremo Tribunal Federal, formulado pelo governo de Roma, o então ministro da Justiça, Tarso Genro, conferiu ao criminoso o benefício de asilado político, confirmado por Lula.

O segundo turno deverá determinar o fim do PT como força política, com a derrota do binômio Fernando Haddad-Manuela D’Ávila. Aos brasileiros respeitáveis não restará alternativa senão derrotá-lo, ainda que o remédio a alguns possa parecer amargo. Diante da urna eletrônica não nos esqueçamos de que o PT nunca se alinhou com países democráticos. As alianças que perpetrou foram com a Cuba de Fidel Castro, a Venezuela de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, a Bolívia de Evo Morales e ditaduras africanas corruptas.

* ADVOGADO, FOI MINISTRO DO TRABALHO E PRESIDENTE DO TRIBUNAL SUPERIOR DO TRABALHO

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