O perigo da ‘Brexit’

Quando, em 2013, o primeiro-ministro David Cameron prometeu forçar a renegociação dos termos da adesão da Grã-Bretanha à União Europeia (UE) e submeter o resultado dessas mudanças a um plebiscito, seu objetivo era principalmente eleitoral. O líder do Partido Conservador pretendia mostrar-se alinhado aos desejos dos britânicos críticos da UE, com vista à eleição geral de 2015. Cameron conseguiu se reeleger premiê, mas seu sucesso naquela ocasião, que premiou seu apelo populista, tem agora o potencial de se transformar em uma grave ameaça – para sua carreira política e, mais importante, para o futuro da Grã-Bretanha e, talvez, da própria União Europeia. É isso o que representa o plebiscito convocado para que os britânicos decidam, em 23 de junho, se querem ou não permanecer no pacto europeu.

O Estado de S.Paulo

24 Fevereiro 2016 | 02h55

A enrascada de Cameron e dos britânicos não é um caso isolado. Resulta da rendição de quase todo o establishment político europeu ao discurso que transforma a UE em bode expiatório das crises que espocaram na última década. Seja em relação ao imenso despejo em território europeu de refugiados das guerras no Oriente Médio, seja no que diz respeito à crise econômica que parece ter se tornado crônica, tudo é debitado na conta da UE.

Há alguma razão nas queixas dos eleitores de diversos países integrantes do bloco em relação à perda de soberania para lidar com os problemas locais. Essas queixas são particularmente fortes nas principais potências europeias, cujos cidadãos se ressentem do fato de que a economia de seus países deve se submeter a regras que, em muitos aspectos, contrariam seus interesses e servem somente para sustentar os países periféricos que aderiram ao pacto europeu sem terem condições ideais para isso.

No entanto, se decidir romper com a UE daqui a quatro meses, a Grã-Bretanha não terá a autonomia que o discurso dos eurocéticos promete, pela simples razão de que nenhum país que faz parte das grandes cadeias comerciais globais é inteiramente livre para tomar suas decisões, devendo se submeter aos termos acordados em negociação com outros países. E os governos europeus em geral sabem que, fora da UE, perderiam drasticamente seu poder de barganha.

O caso da Grã-Bretanha é ainda mais sensível porque se trata de um país que, como parte da UE, ainda se mantém como centro financeiro da Europa e parceiro preferencial dos Estados Unidos no continente, a despeito de sua perda de musculatura nos últimos tempos. Fora da UE, os britânicos terão bem menos a oferecer tanto à Europa quanto a seus sócios americanos. É, no dizer de Cameron, apenas uma “ilusão de soberania”.

É por isso que, confrontado com a realidade, Cameron anunciou que fará intensa campanha pela manutenção do país no bloco europeu. “Estamos nos aproximando de uma das decisões mais importantes de nosso tempo”, discursou o premiê, dando o devido tom dramático ao desafio que ele mesmo criou.

Para convencer os eleitores, Cameron garante que conseguiu negociar melhores condições para aperfeiçoar a relação da Grã-Bretanha com a UE. De fato, os britânicos poderão impor limites ao pagamento de benefícios a cidadãos da UE que migrarem para o país e também terão mais poder para contestar medidas econômicas que contrariem seus interesses. Do ponto de vista dos eurocéticos, é muito pouco. Seis ministros de Cameron e o popular prefeito de Londres, o também conservador Boris Johnson, já anunciaram seu engajamento de corpo e alma na campanha pela Brexit, acrônimo em inglês para a saída (exit) da Grã-Bretanha (Britain) da UE.

Do outro lado, o “não” à Brexit ganhou o reforço precioso das 100 maiores empresas da Grã-Bretanha, que manifestaram publicamente seu receio de perder o “acesso irrestrito ao mercado europeu de 500 milhões de pessoas”. Teme-se, acima de tudo, que o eventual abandono da UE seja, nas palavras de Cameron, um “salto no escuro” – e um triunfo para o crescente discurso radical antieuropeu e xenofóbico.

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