O perigo das decisões precipitadas

Faz-se muito barulho com o que não tem a menor importância para abafar o que tem toda

Fernão Lara Mesquita*, O Estado de S.Paulo

07 Agosto 2018 | 05h34

A onda nacional de repúdio que o vexame do Roda Viva com Jair Bolsonaro provocou teve, afinal, um subproduto positivo. Poupou o Brasil do que poderia ter sido o vexame da GloboNews se ela tivesse chegado virgem e com o ímpeto em que vinham vindo a maior parte das redações. Na noite da sexta-feira (3/8) nenhuma agressão lhe foi dirigida e quase tudo lhe foi perguntado no tom que convém.

O vexame esteve nas respostas.

O fenômeno Bolsonaro é independente de Jair Bolsonaro. O candidato transformou-se no valhacouto de todos os exilados do Brasil com voz. Na sua praia acabaram por encalhar os censurados pelos ditadores da “correção política”, os resistentes ao terrorismo moral, todos quantos as subideologias fabricadas repulsam, os rebelados contra a sistematização da mentira, os que se recusam a não ver o que seus olhos enxergam, os que insistem em educar eles próprios os seus filhos, os condenados à não existência midiática, os que persistem no index dos “ismos” proibidos.

O liberalismo de Paulo Guedes também foi lá bater fugido da censura e logo passou de resgatado a resgatante, tal é o vazio que encontrou. No seu rastro vieram os cacos da classe média meritocrática em extinção e os exauridos todos do welfare state moreno com sotaque francês, a única outra alternativa à venezuelização que se apresenta.

Mas tudo isso aconteceu mais pela precisão desses desvalidos que pela boniteza do “candidato honesto” que veio até à véspera desta fugindo de debates e de entrevistas montado apenas em peças editadas de WhatsApp.

Foi quase por acaso, aliás, que ele fez saber aos espectadores da GloboNews que, sim, a seu ver são também honestos não só o seu particular auxílio-moradia como também os privilégios todos dos marajás de farda. Ele nada mais disse porque não lhe foi perguntado, o que é muito pior, mas a avaliação abrange também, “por isonomia”, os dos marajás sem farda.

O déficit acumulado pela previdência do setor público de 2001 a 2015 foi de R$ 1,3 trilhão para atender 1 milhão de aposentados! O déficit da previdência privada, atendendo a 33 milhões de aposentados, no mesmo período, foi de R$ 450 bilhões. A média das aposentadorias do setor privado é de R$ 1,5 mil. No setor público, a média é de R$ 9 mil no Poder Executivo, o pedaço do marajalato mais sensível ao voto, de R$ 25 mil no Legislativo, R$ 29 mil no Judiciário e acima de R$ 30 mil no Ministério Público.

Quase todos os Estados brasileiros, responsáveis pela segurança pública dos 63 mil assassinados por ano, pela saúde e pelo saneamento dos reassolados pelas pestes medievais e pela educação dos ladrões de medalhas de Matemática gastam mais hoje com aposentados que com funcionários na ativa. É a mais vasta máquina de transferência de dinheiro de pobres para ricos jamais criada na face da Terra e a trajetória do déficit põe uma explosão de proporções telúricas imediatamente além da próxima curva.

Mas isso continua sendo um não problema. Não entra em pauta no debate presidencial.

Este desinteresse da imprensa (há exceções raras, inclusive na televisão) pelo assalto à riqueza da Nação com a gazua da lei; este acobertamento do estupro coletivo do Brasil pelas corporações que tomaram o Estado de assalto é a última coisa que une esquerda e direita no Brasil. Essa cumplicidade mole, silenciosa, acovardada e com medo da vida do “país com tetinhas” para com o “país com tetonas”, que irmana partidos e conecta os extremos do espectro ideológico é que empurra os nossos muitos rios de janeiros para o niilismo da desesperança e para a guerra. Mas foi o único ponto em que as visões de Bolsonaro e da banca examinadora da Rede Globo não geraram faísca por baixo da polidez com que tudo transcorreu.

“Nem os quilombolas, nem ninguém tem direito de ter comida servida na boca.”

“Nenhum centímetro mais de terra indígena.” 

“Gays, sim, kit gay não.” 

“Brancos e negros, ricos e pobres, gays e heteros, somos todos brasileiros.”

“A história do Brasil foi a que foi, não a que é narrada.”

O Brasil está tão desesperadamente carente que tem ejaculações precoces com a mera declaração do óbvio em público. Mas, de parte a parte, faz-se um enorme barulho com o que não tem a menor importância para manter abafado o que tem toda.

Jair Bolsonaro e Donald Trump são filhos da mesma negação, só que Trump é arrogante e Bolsonaro é humilde, Trump sabe o que é capitalismo - de “laços”, vá lá - e Bolsonaro nem isso. Há uma enorme diferença certificada por uma obra concreta na capacidade de formulação, de montagem de equipe e de execução entre Jair Bolsonaro e Geraldo Alckmin. Mas, assim como o “candidato honesto” ladra mas não morde, a democracia da vaidade, aristocrática e sem povo, do PSDB não chega nunca à penetração. Nenhum dos dois está contra o “sistema”, estão apenas fora dele e muito desgostosos com isso. Nenhum dos dois propõe reformas que mudem a essência ou a direção do que quer que seja, ambos contentam-se com “ajustes”, com meras regulagens de velocidade, com vender anéis para preservar os dedos.

O Brasil terá de ir ainda mais fundo no Inferno antes de sermos arrastados de volta ao purgatório. Tiradentes foi o último momento em que estivemos parelhos com a ponta mais moderna do pensamento político. Desde que fomos invadidos pela corte e viciados nas blandícias da “aquisição de direitos”, nunca mais acertamos o passo. É sempre o mundo que acaba nos arrastando para as modernidades depois que elas ficam velhas.

Nós nos aferramos às nossas escravidões e somos sempre os últimos a aboli-las. Quem está dentro não sai e quem está fora sonha em entrar. Estamos sempre duas ou três revoluções atrasados. Só somos “avançados” no papo furado. Privilégio é o nosso negócio. O favelão continental que se exploda.

*JORNALISTA, ESCREVE EM WWW.VESPEIRO.COM

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.