O perigo das promessas cumpridas

Candidatos prometem tudo. Eleitores sabem que promessas não serão cumpridas, mas votam assim mesmo. É extraordinária a capacidade das pessoas de se alimentarem de ilusões.

Alexandre Barros, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2010 | 00h00

Um jornal lançou um promessômetro: vai registrar promessas dos candidatos e depois conferir seu cumprimento.

Em geral, quem apoia o candidato gosta das suas promessas e desgosta das do oponente. Raciocínio de eleitor: gosto do que acho que será bom para mim e desgosto do que será ruim ou me desagrada.

A proposta aqui é inverter esse raciocínio e esquecer que as promessas feitas não serão cumpridas. Mudemos o paradigma: imaginemos o que aconteceria se as promessas fossem todas cumpridas.

A marca registrada das promessas eleitorais é a generosidade. Todos os candidatos prometem mundos e fundos: salvação para todos, vida melhor, salário melhor e mais felicidade. Ninguém se lembra de que a felicidade custa recursos.

Tudo o que as pessoas amam devem a capitalismo. Aquela moto ou o carro que lhe dá tanto prazer não apareceu ali na sua porta por desejo ou descuido de Papai Noel. Foram necessários os esforços de muita gente (combinação de capital e trabalho) para que você pudesse subir nas suas duas ou quatro rodas e desfrutar os prazeres de uma viagem ou os desprazeres de um engarrafamento. Desde quem pensou o produto até quem agregou tudo, para um monte de metais, plásticos e outras matérias-primas chegarem a ser um carro ou uma moto.

O feijão, o peixe ou o bife que você come não chegaram ao seu prato por desejo deles, mas pelo desejo e esforço de um enorme número de pessoas que plantaram, cuidaram, pescaram ou criaram, entregaram e cozinharam o que deu origem ao feijão, peixe ou bife que estão no seu prato.

Isso é o que tende a ser ignorado pelos eleitores quando ouvem as promessas. Eles fantasiam, como quem compra o bilhete da Mega Sena, que o peixe veio nadando até seu prato ou que o boi depositou o bife na sua mesa. Mas o prêmio da Mega Sena só acumula em muitos milhões porque alguns milhões de pessoas pingaram nas lotéricas, monopolizadas pelo governo, seus caraminguás que viram, agregados, aquele prêmio cheio de cifrões, com o qual sonhamos de domingo a quarta e de quinta a sábado.

As promessas eleitorais ignoram todos esses fatos. Elas partem do princípio de que as coisas vão acontecer porque os candidatos assim querem e os eleitores neles acreditam.

Na hora de cumprir as promessas é que a porca torce o rabo. Qualquer promessa, para ser cumprida, vai custar recursos de milhões de pessoas, empresas, agências governamentais, que vão precisar trabalhar, pagar impostos (e o governo terá de recolhê-los) para transformar cada um daqueles sonhos em política pública viável, seja ela o Bolsa-Família, os milhares de creches e postos de saúde ou os muitos quilômetros de uma ferrovia.

Assim, meu caro eleitor, antes de votar pense no que aconteceria se todas aquelas promessas que você ouviu durante a campanha eleitoral fossem, de fato, cumpridas. Faça as perguntas que Henry Hazlitt sugeriu em seu livro Economia em uma Lição. Quem vai pagar aparentemente por aquelas promessas? De onde vem o dinheiro? Quem vai pagar de verdade os custos das promessas? Quem vai se beneficiar? Pense não apenas nos beneficiários imediatos e aparentes, mas em todos aqueles de quem nos esquecemos nas análises rápidas, superficiais e emocionais (qualquer política pública tem beneficiários intermediários não aparentes). Será que aquelas promessas vão mesmo trazer aquele bem que os políticos prometem aos eleitores, destinatários delas?

Lamento criar este incômodo para você, meu caro leitor. Presumo que você preferiria não ter lido este artigo e ir votar sossegado, apertar os botões e torcer para que a maioria dos eleitores aperte a mesma combinação de botões, para que os resultados daquelas promessas jorrassem tranquilamente durante os próximo quatro anos do governo que for eleito.

Pare um pouco e pense no que vai acontecer se aquelas promessas forem cumpridas. Quem vai pagar a conta?

Sei que sua situação no dia da eleição seria muito mais confortável se você não se fizesse estas perguntas, pois iria votar com a crença (ou a esperança) de que todas aquelas promessas seriam cumpridas e o seu mundo se tornaria muito mais agradável, a custo zero.

Só que não será a custo zero. Não existe nada que não custe alguma coisa. Atenha-se às promessas viáveis. Nada de mais que algumas delas vão beneficiar alguns grupos, desde que você se dê ao trabalho de pensar quem são todos os beneficiários. Será que os beneficiários não aparentes à primeira vista ganharão mais do que os beneficiários apregoados pelos candidatos?

Uma estrada pode beneficiar muita gente que vai usá-la, mas vai beneficiar também quem for construí-la. Idem uma creche. O aumento do salário por lei vai ser muito bom para quem vier a recebê-lo, mas você terá de contribuir com um pouquinho do seu dinheiro para que alguém ganhe mais.

Se isso tudo for feito via mercado, com cada um de nós decidindo em que vamos gastar nosso dinheiro, teremos a tranquilidade de saber que, mal ou bem, pagamos pelo nosso benefício. Mas sendo isso feito via impostos, a situação é diferente. Alguém vai resolver de que maneira vai gastar o seu dinheiro. A regra é universal e quem a ensinou foi Milton Friedman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia: quando alguém gasta o dinheiro dos outros (no caso, o nosso), em benefício dos outros (no caso, nós), não importam nem o preço nem a qualidade do produto ou serviço prestado.

Boa sorte amanhã e pense nos problemas que teríamos se todas as promessas fossem cumpridas.

CIENTISTA POLÍTICO, É DIRETOR-GERENTE DA EARLY WARNING: OPORTUNIDADE E RISCO POLÍTICO (BRASÍLIA). E-MAIL: ALEX@EAW.COM.BR

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.