O perigo europeu

Nem o risco cada vez mais palpável de uma recessão impediu o mercado financeiro de festejar as últimas notícias da zona do euro. Os novos números foram ruins, mas não tanto quanto aqueles previstos nos últimos dias. A maior economia do grupo, a alemã, motor da união monetária, cresceu apenas 0,3% no segundo trimestre, mas projeções indicavam uma expansão de 0,2%. A segunda maior potência, a França, ficou estagnada. Foi um resultado melhor que a bola cantada pelos especialistas - uma contração de 0,1%. Na média, o Produto Interno Bruto (PIB) da eurolândia encolheu 0,2%, depois de permanecer estável entre janeiro e março. Apesar disso, os investidores e especuladores foram às compras, justificando sua decisão com um argumento muito simples: feito o balanço, o conjunto foi melhor que o esperado. O crescimento do varejo americano, com vendas de julho 0,8% maiores que as de junho, reforçou a boa disposição na maior parte das bolsas de valores.

O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2012 | 03h09

Se encolher neste trimestre, a economia da zona do euro estará tecnicamente em recessão. A possibilidade é grande, a julgar por alguns indicadores divulgados recentemente. Segundo analistas, a produção industrial continuou a cair, depois de haver diminuído 0,6% de maio para junho. O índice de expectativas calculado pelo instituto alemão ZEW caiu em agosto pelo quarto mês consecutivo. Além do mais, os países mais afetados pela crise das dívidas soberanas continuam atolados em dificuldades e tendem a pressionar mais fortemente a economia de toda a união monetária.

Na Itália, terceira maior potência da zona do euro, o PIB encolheu 0,7% no segundo trimestre. Na Espanha, a contração foi de 0,4%. Em Portugal, de 1,2%. Na Grécia, o país em pior situação, a retração econômica já dura cinco anos. O PIB diminuiu 6,2% no período entre abril e junho. Especialistas do setor financeiro estimam para este ano um PIB 7,1% menor que o do ano passado e uma redução adicional de 2,4% no próximo ano.

A economia americana continua em recuperação muito lenta e as notícias da Ásia também são pouco entusiasmantes. A economia indiana perde impulso, embora ainda cresça em ritmo superior a 5%, e as autoridades dispõem de quase nenhum espaço para políticas de estímulo, porque a inflação supera 7% ao ano e as contas públicas vão mal. No Japão, o crescimento de 0,3% no segundo trimestre ficou abaixo do esperado.

As melhores notícias vêm da China, onde a inflação foi contida e o governo passou a dispor de melhores condições para dar novo impulso ao crescimento. De toda forma, o objetivo oficial será, provavelmente, um crescimento em torno de 8% ao ano, bem inferior à média das duas últimas décadas.

A China também é afetada pela crise nas economias mais desenvolvidas, apesar do esforço para tornar sua indústria menos dependente das exportações. As autoridades chinesas têm procurado estimular a demanda interna, mas a mudança no estilo de crescimento tem sido lenta.

Embora a economia da China deva continuar excepcionalmente dinâmica para os padrões internacionais, sua acomodação num ritmo de crescimento próximo de 8% ao ano será mais um problema para o Brasil. O mercado chinês é o principal destino das exportações brasileiras, hoje constituídas, na maior parte, de matérias-primas e produtos semimanufaturados.

A pequena redução do crescimento da China já afetou os preços de muitos produtos básicos e isso se refletiu na balança comercial brasileira. As cotações da soja, no entanto, permaneceram altas e isso atenuou o efeito geral da queda de preços. A quebra da safra americana poderá reforçar as cotações e dar ao Brasil mais algum tempo para reorganizar sua estratégia comercial. Seria um erro muito grave continuar na dependência do dinamismo de alguns emergentes e de seu apetite por matérias-primas brasileiras. O Brasil estaria sujeito a menos riscos - e menos vulnerável aos efeitos da crise global - se o governo houvesse cuidado há mais tempo dos problemas da eficiência econômica, em vez de se contentar com medidas de curto alcance. As autoridades prometem, agora, medidas estruturais.

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