O pesadelo dos aeroportos

O Brasil está a poucos dias do primeiro dos grandes eventos esportivos que colocarão à prova a capacidade do País de receber bem milhares de visitantes. A Copa das Confederações, de 15 a 30 de junho, é considerada apenas um "teste" para a Copa do Mundo, de 12 de junho a 13 de julho do ano que vem, porque deverá atrair somente uma fração dos esperados 600 mil turistas estrangeiros no Mundial. Ainda assim, já há motivos para muita preocupação, porque o próprio governo federal, tão afeito a malabarismos retóricos para negar a realidade, acaba de admitir que é pequena a capacidade de investimento na infraestrutura dos aeroportos e, por isso, suas reformas estão bastante atrasadas.

O Estado de S.Paulo

28 Maio 2013 | 02h08

No caso do Galeão, por exemplo, foram gastos em dois anos somente cerca de 5% do que estava disponível, conforme informou o ministro da Secretaria de Aviação Civil, Moreira Franco, no seminário "Desafios da Aviação Civil no Brasil", promovido pela Câmara dos Deputados. Moreira Franco disse que há atrasos nas obras da maioria dos 23 aeroportos incluídos no Programa de Aceleração do Crescimento. São reformas que estão sob responsabilidade da Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero), porque os aeroportos em questão são todos administrados pelo Estado. Nessa lista estão aeroportos de cidades-sede da Copa de 2014, um indicativo de que haverá muita correria nos próximos meses para respeitar o cronograma.

"Não existe plano B, só plano A", disse Moreira Franco. "A Copa está com o calendário definido e todos os esforços precisam ser feitos para cumprir os prazos." Considerando-se que a escolha do Brasil para sediar a Copa foi feita em 2007 e que o calendário da competição foi anunciado em 2011, não é possível falar em surpresa ou em imprevisto, mas apenas em incompetência.

Na opinião de Moreira Franco, os problemas nas reformas dos aeroportos não se devem à falta de recursos, mas a projetos "de baixa qualidade". O ministro responsabilizou diretamente o Tribunal de Contas da União (TCU) pelo problema. Segundo sua lógica, o TCU, ao barrar projetos que preveem custos considerados muito altos, acaba obrigando o poder público a buscar alternativas mais baratas, mas que não são, necessariamente, as melhores. "Temos de entender que gastar não é pecado. Se quisermos fazer um grande projeto, temos de ter as melhores empresas de engenharia, os melhores projetistas. Só se faz isso gastando", afirmou o ministro. Com isso, Moreira Franco tenta convencer o País de que o problema é meramente técnico, e não de gestão, e que basta gastar mais para ter resultados satisfatórios. Trata-se de uma falácia.

O trabalho do TCU é fiscalizar se o gasto previsto em determinada obra pública corresponde ao projeto. Os engenheiros do tribunal - que, segundo Moreira Franco, são mais bem remunerados que seus colegas que trabalham nas reformas do aeroportos - verificam se o edital foi respeitado, se houve aditivos desnecessários e se há irregularidades. A ação do tribunal gera economia - no caso das reformas de portos e aeroportos para a Copa, ela é da ordem de R$ 400 milhões - porque simplesmente se evitou desperdício de dinheiro público, e não porque o TCU tenha feito alguma pressão para que se optasse por serviços mais em conta.

O fato é que o governo já começa a procurar culpados por um eventual desastre na Copa, e o TCU tem sido há tempos o vilão preferencial - quando era presidente, Luiz Inácio Lula da Silva criticou diversas vezes o tribunal por paralisar obras sob suspeita e chegou a questionar sua credibilidade. Enquanto isso, o governo petista, que vive de marketing, já começou a espalhar pelos aeroportos os adesivos alusivos à sua campanha ufanista "A Pátria de Chuteiras", com mensagens de boas-vindas aos turistas que virão para a Copa das Confederações. Quem sabe se, com a simpatia brasileira patrocinada pelo Ministério do Turismo, os visitantes esqueçam um pouco os dissabores que enfrentarão nos aeroportos.

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