O peso da China

Do superávit de US$ 51,7 bilhões acumulados pelo Brasil nos 11 primeiros meses de 2018, 50,7% resultam do comércio com o país asiático

O Estado de S. Paulo, O Estado de S.Paulo

09 Dezembro 2018 | 03h00

Os dados não deixam dúvida: o peso da China no comércio exterior brasileiro, já notável nos últimos anos, tornou-se ainda maior em 2018. Do superávit comercial de US$ 51,7 bilhões acumulado pelo Brasil nos 11 primeiros meses deste ano, nada menos do que 50,7%, ou US$ 26,2 bilhões, resultaram do comércio do País com a China. No ano passado, esse comércio produziu 30,7% do saldo comercial acumulado no mesmo período (US$ 19,0 bilhões, de um total de US$ 62,0 bilhões). A segunda maior potência do mundo já absorve mais de um quarto do total que o País exporta. Dos US$ 220,0 bilhões exportados de janeiro a novembro deste ano, US$ 58,8 bilhões, ou 26,7%, tiveram a China como destino.

Só esses números bastariam para mostrar a crescente influência da China sobre a economia brasileira. Mas este é apenas um dos lados do relacionamento cada vez mais intenso entre o país cuja economia dentro de alguns anos será a maior do planeta e aquele que tem a maior economia da América Latina. Há outro, que resulta em laços econômicos mais fortes e que tendem a ser mais duradouros. É a presença cada vez maior do capital chinês nos investimentos estrangeiros absorvidos pelo Brasil.

Há pelo menos um decênio a presença de investimentos chineses na economia brasileira vem se intensificando. Em 2010 – ano que marca o início do período de maior participação dos chineses na economia nacional –, o Brasil respondeu por cerca de um quarto das aquisições feitas pela China no exterior. Isso representou investimentos de mais de US$ 10 bilhões naquele ano. No ano passado, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), o total de investimentos chineses anunciados e confirmados alcançou US$ 17,4 bilhões, dos quais US$ 8,8 bilhões foram confirmados.

O volume acumulado nos últimos anos é expressivo. O CEBC estima em US$ 98 bilhões o total de investimentos anunciados e confirmados (estes somam US$ 55 bilhões) em 157 projetos (dos quais 115 confirmados) entre 2007 e 2017.

Utilizando outra base de dados, a Secretaria de Assuntos Internacionais (Seain) do Ministério do Planejamento mapeou 269 projetos de investidores chineses anunciados e confirmados de 2003 até agosto deste ano, envolvendo investimentos de US$ 124 bilhões. Foram confirmados 124 projetos, que exigiram investimentos de US$ 54,1 bilhões. Há discrepâncias nos números entre os dois levantamentos em razão do uso de diferentes fontes. Ambos mostram, porém, a forte e crescente presença do capital chinês na economia brasileira.

A recessão iniciada em 2015, no governo de Dilma Rousseff, reduziu o preço dos ativos brasileiros, o que fez crescer o apetite da China por empresas nacionais. Mas a diversificação dos setores pelos quais o capital chinês se sentiu atraído também pode explicar o contínuo crescimento de sua participação na economia brasileira.

A Seain observa, por exemplo, que os investimentos chineses no Brasil ao longo do tempo observam um certo padrão. Entre 2010 e 2012, eles se concentraram nas áreas de petróleo e gás e de mineração. Entre 2013 e 2016, seu interesse se orientou para a indústria automobilística e de mineração. De 2014 para cá, há crescente entrada de capitais chineses no setor de energia.

Por origem, esses capitais são predominantemente estatais. Entre 2007 e 2017, segundo a CEBC, 87% dos valores investidos no Brasil tiveram como origem empresas com participação estatal; apenas 13% eram de origem privada.

É inegável que, qualquer que seja sua origem, esses investimentos – tanto em projetos novos, chamados greenfield, como em empreendimento já existentes, chamados brownfield – suprem a notória falta de capacidade de investimento da economia brasileira. Eles são particularmente relevantes no momento em que o País enfrenta uma séria crise fiscal que corrói os investimentos públicos. Pode-se divergir de métodos e práticas do regime chinês, mas não se pode ignorar o papel que a economia e os investimentos chineses têm na sustentação da economia brasileira.

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