O peso da crise americana

O crescimento da economia global ainda vai depender por um tempo dos grandes emergentes, como China, Índia e Brasil, porque as grandes potências do mundo rico, a começar pelos Estados Unidos, deverão ter uma longa convalescença da crise. Serão necessários mais quatro ou cinco anos para o desemprego americano voltar a um nível normal, se a recuperação continuar lenta como até agora, disse nessa sexta-feira o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), o economista Ben Bernanke.

, O Estado de S.Paulo

08 Janeiro 2011 | 00h00

Foram criados em dezembro 103 mil empregos não agrícolas nos Estados Unidos, segundo informou no mesmo dia o Departamento do Trabalho. Economistas consultados pela Dow Jones haviam previsto 150 mil. O resultado do mês praticamente repetiu a média mensal registrada até novembro, 100 mil, citada por Bernanke em seu depoimento no Senado.

De um mês para o outro a taxa de desemprego caiu de 9,8% para 9,4%, mas isso se deveu, pelo menos em boa parte, à diminuição temporária da força de trabalho. Isso ocorre quando uma parte das pessoas desocupadas desiste provisoriamente de procurar emprego. Segundo as estimativas oficiais, ainda há cerca de 14,5 milhões de desempregados.

O desemprego elevado e o endividamento limitam a capacidade de consumo das famílias. No ano passado, 1,5 milhão de pessoas declararam insolvência, um número 9% maior que o de 2009. Em três anos cerca de 4 milhões recorreram à Justiça para oficializar insolvência pessoal. Menos de 50% reescalonaram dívidas. A maioria simplesmente faliu. Milhões, portanto, deverão ter dificuldade para conseguir crédito, de novo, e isso prejudicará a reativação da economia.

O Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos cresceu no terceiro trimestre em ritmo equivalente a 2,6% ao ano. Houve expansão pelo quinto trimestre consecutivo, mas o dinamismo ainda é insuficiente para compensar os estragos causados pela recessão de 2008-2009. O desemprego permanece elevado e os enormes estímulos concedidos pelo Tesouro apenas serviram para impedir uma catástrofe maior. O impulso gerado não foi suficiente para um crescimento econômico autossustentado.

Com esse esforço, o governo americano aumentou seu endividamento. A dívida federal em poder do público já chegou a US$ 9,4 trilhões, segundo dados exibidos nessa sexta-feira pelo Tesouro. Isso corresponde a cerca de 62,4% do PIB estimado para 2010. Somada a dívida intragovernamental, o resultado chega a US$ 13,9 trilhões, praticamente no limite legal. Por isso o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, pediu ao Congresso uma elevação do limite para US$ 14,3 trilhões.

O problema não é apenas legal. É principalmente econômico. O governo não pode apertar seus gastos abruptamente, para não frear a recuperação econômica, ainda muito fraca. Mas também não pode adiar por muito tempo a correção do desequilíbrio fiscal. Além disso, parte do déficit público, segundo Bernanke, é estrutural. Em outras palavras, não foi produzido pela política de estímulos dos últimos dois anos.

Como o aumento do gasto e os demais estímulos produziram efeito limitado, dirigentes do Fed resolveram assumir uma parte maior da responsabilidade pela recuperação da economia americana. Já haviam reduzido os juros básicos para a faixa de zero a 0,25% ao ano. Como isso não bastou, começaram a comprar títulos públicos em poder do mercado. Em novembro, anunciaram a disposição de levar adiante esse esforço, recolhendo até abril deste ano um volume adicional de títulos no valor de US$ 600 bilhões. Essa política, sujeita a revisão periódica, está mantida, porque a reativação continua insatisfatória. O crescimento em 2011 poderá ser pouco mais forte que o de 2010, segundo Bernanke, mas o desemprego permanecerá elevado.

Essa situação impõe um custo pesado ao Brasil e a várias outras economias emergentes. A longa convalescença econômica dos Estados Unidos vai continuar freando a recuperação global. Além disso, o Fed inundará o mundo com dólares por mais algum tempo e as autoridades brasileiras continuarão batalhando contra a valorização do real.

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