O peso das palavras

As palavras têm peso. Ditas por um presidente, maior ainda. Moldam percepções a respeito de quem as diz, influenciam opiniões acerca do que se diz, dão o tom do debate público e formam imagens do país no exterior. Enfim, produzem consequências relevantes. Importam tanto pelo conteúdo quanto pela forma da mensagem que constroem e transmitem.

Sergio Fausto, O Estado de S.Paulo

25 Abril 2010 | 00h00

Sarney era comedido; às vezes, literário; no geral, aborrecido. Assim como Itamar, parecia carregar o cargo como um fardo sobre os ombros. Entre os que exerceram a Presidência com entusiasmo, Collor se destacava por alterar expressões de tosca valentia masculina (como no espantoso "tenho aquilo roxo") com discursos de estadista "para inglês ver", sempre com os olhos estalados e a voz impostada. Fernando Henrique, cerebral e culto, com sólida formação acadêmica, explicava os propósitos e a lógica das políticas de seu governo. Ferino, porém, não poupou de adjetivos depreciativos os seus adversários, a exemplo do "neobobos", atribuído aos que lhe acusavam de "neoliberal". Chegou mesmo a dizer "vagabundos", em referência a servidores que se aposentavam cedo com salários altos, o que lhe custou explicações e votos entre funcionários públicos. Rara derrapada de um presidente atento às palavras.

De todos eles, Lula, outro que exerce a Presidência com gosto, é quem melhor domínio tem sobre o rico repertório da linguagem popular. Usa e abusa dessa vantagem para defender seu governo (não raro para escusar "companheiros"), mostrar-se indignado (com frequência contra atos e fatos sob a sua própria responsabilidade), atacar adversários e criar identidade entre si e o povo pelo fio da comunicação política.

Beira o pornográfico, como quando recorre à metáfora do "ponto G", mostrando-se desenvolto no hábito nacional de usar a malícia e o duplo sentido na linguagem. Não hesita em empregar palavrão para realçar a sua preocupação em "tirar o povo da merda em que se encontra", independente do partido do governador ou prefeito a ser apoiado com verbas federais. Ou em recorrer a uma contração chula para marcar a crítica aos que lhe acusavam de vender otimismo fácil diante da crise, em certeira metáfora médica: preferem o médico que chega para o paciente doente e diz "sifu, companheiro"?

Há quem não goste do estilo. Mas, até aí, é disto que se trata: questão de estilo. E, verdade seja dita, Lula roça, mas não atravessa o limite da grosseria. Assim como não cruza a fronteira que separa a confrontação política ("quero uma eleição tipo nós contra eles") da guerra aberta aos adversários, transformados em inimigos. Salvo na frase acidentalmente captada antes de comício eleitoral em Pelotas, ainda em 2002, quando o então candidato do PT disse ser a cidade "um polo de exportação de veados", o presidente Lula não se tem valido da linguagem rude para estigmatizar pessoas, grupos ou adversários. Lula não é Chávez.

Muito diferente é quando o presidente mobiliza seus dotes de comunicador popular para zombar da lei ou fazer pouco de outros chefes de Estado. Aí a questão deixa de ser de estilo e passa a dizer respeito à essência da conduta que se espera de um presidente num país democrático e respeitado no mundo. Falta que se agrava pela audiência interna e externa que Lula conquistou.

Dois episódios recentes servem para ilustrar o argumento. O primeiro é o da sua reação à multa que lhe foi aplicada pelo Tribunal Superior Eleitoral por desrespeitar a legislação que define os limites entre atos de governo e comícios eleitorais. Em novo ato-comício, dessa vez em Osasco, debochou da punição, com amplo e irrestrito uso da ironia, dizendo que da próxima vez traria a multa para os presentes pagarem. Na zombaria, transmitiu a mensagem de que a punição legal não passava de um capricho tolo, refletido no valor supostamente irrisório da multa aplicada. Uma mixaria, incapaz de impedi-lo de seguir em campanha em favor de sua candidata. Afinal, a lei, ora a lei, diante da grandeza do personagem (ele próprio) e da causa histórica na qual está empenhado (a continuidade do governo do "nunca antes neste país"). Conduzido à sua consequência lógica, o raciocínio implícito na zombaria de Lula levaria a justificar eventual atropelo autoritário dos limites à vontade presidencial. Felizmente, os discursos de Lula não se articulam segundo a lógica.

Outro episódio revelador da inclinação presidencial ao autoengrandecimento e à minimização da importância alheia é a entrevista que Lula deu ao jornal espanhol El País, às vésperas da cúpula sobre segurança nuclear convocada pelo presidente Obama em Washington. Na entrevista, o presidente brasileiro recorre novamente ao deboche e à imagem de fácil apreensão para reiterar a posição brasileira cética em relação ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear e contrária a sanções contra o Irã. Lula comparou o compromisso firmado entre Estados Unidos e Rússia de destruir 30% dos seus respectivos arsenais atômicos, visto como conquista de Obama, ao ato de jogar fora remédios velhos, com prazo de validade vencida, "como eu faço lá em casa em São Bernardo".

Não que seja impertinente questionar o tamanho real do compromisso assumido entre Washington e Moscou, como o fez o editor da página de opinião do The Moscow Times, Michael Bohm, em artigo publicado na edição de 20 de abril deste jornal. De novo, o problema é o deboche. Nesse caso, o alvo não são as leis do País, mas o presidente da maior potência mundial. Em comum, a mesma dificuldade de deparar-se com algo ou alguém que ouse estar acima dele, Lula.

Em ambos os casos, tem-se o coloquialismo do homem comum a disfarçar uma arrogância que se imaginaria encontrar num aristocrata de gestos e palavras esnobes.

Embora fosse desejável menor vulgaridade, vê-se que os palavrões são o de menos na fala presidencial.

DIRETOR EXECUTIVO DO IFHC, É MEMBRO DO GRUPO DE ACOMPANHAMENTO DA CONJUNTURA INTERNACIONAL (GACINT) DA USP. E-MAIL: SFAUSTO40@HOTMAIL.COM

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