O peso do Brasil e Venezuela

A América Latina deve crescer em 2015 bem menos que no ano anterior (1,1%), aponta a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). “Espera-se uma taxa de crescimento regional de 0,5% como média ponderada; a América do Sul mostraria uma contração de 0,4%; a América Central e o México, um crescimento de 2,7%; e o Caribe, um crescimento de 1,7%”, afirma o estudo da agência da ONU.

O Estado de S. Paulo

04 Agosto 2015 | 03h00

A desaceleração do crescimento econômico da região está diretamente relacionada às performances do Brasil e da Venezuela. “Embora a desaceleração seja um fenômeno generalizado na região, a evolução do crescimento foi muito heterogênea entre países e sub-regiões”, afirma o estudo, que estima uma contração de 1,5% no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e, no caso da Venezuela, uma redução de 5,5%.

Essas taxas recessivas são exceções. O Panamá deve crescer 6,0%; o México, 2,4%; e a Argentina, 0,7%. Elas também contrastam com as expectativas globais para 2015 – os países ricos devem crescer 2,2% e as economias emergentes, 4,4%. A conclusão, cristalina, é um alerta para os governos dos dois países: se os outros estão crescendo, não há razão externa que justifique o resultado brasileiro e o venezuelano. As causas para a recessão são internas.

Ao tratar dos fatores internos para o baixo crescimento da região – e, no caso do Brasil e da Venezuela, para a recessão –, a Cepal destaca o processo de desaceleração da demanda liderado pela queda do investimento, que vem ocorrendo desde 2011 e acelerou a partir do segundo trimestre de 2013. A entidade faz um alerta: “A dinâmica do investimento é preocupante por seus efeitos negativos não só sobre a dinâmica do ciclo econômico, mas também sobre a capacidade de crescimento no médio e longo prazo”.

Ou seja, os atuais indicadores mostram que a crise não é passageira, tendo afetado a própria capacidade de reação para a retomada do crescimento. “Redinamizar o crescimento no curto e longo prazo é necessário para impulsionar o investimento público e privado em tempos complexos. Isto pode ser realizado com regras fiscais que protejam o investimento, recorrendo a parcerias público-privadas e a novas fontes de financiamento”, afirmou Alicia Bárcena, secretária executiva da Cepal.

O estudo também indica o crescimento do desemprego na América Latina, cuja taxa em 2015 deve ficar em torno de 6,5%, face aos 6% de 2014. A Cepal justifica a previsão com base na “persistente debilidade da geração de emprego”. Pena que o governo Dilma Rousseff não tenha se servido desse dado como sintoma para o real estado da economia em 2014. Ainda que as taxas de emprego tenham se mantido relativamente estáveis no ano passado, era nítida a deterioração da qualidade do emprego que vinha sendo gerado – sinal claro de que as coisas não estavam bem e era necessária uma urgente mudança de rumo da política econômica.

Há diversos outros pontos do estudo que jogam luzes sobre a atual situação da economia brasileira. Por exemplo, a Cepal afirma que “a concessão de incentivos tributários ou subsídios parece ter efeitos pouco relevantes na materialização dos investimentos, com impactos negativos imediatos sobre o espaço fiscal e a provisão de bens públicos”.

Ao falar da necessidade de investimento em infraestrutura – ainda que reconheça que o gasto público bem gerido pode ajudar a gerar um círculo virtuoso de crescimento sustentável –, a Cepal lembra que “são necessários esforços maiores não só na quantidade, mas também na qualidade do investimento e, em consequência, na qualidade das políticas públicas de planejamento e gestão da infraestrutura”. Como não se lembrar do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com sua sanha de grandeza?

Em resumo, o governo brasileiro tem muito dever de casa a ser feito. O seu desleixo está prejudicando o desempenho da região.

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