O PIB que caiu no primeiro trimestre

Tratarei de tecnicalidade do produto interno bruto (PIB) trimestral divulgado regularmente pelo IBGE, a de um ajuste sazonal dos dados observados. Para estimular o leitor a prosseguir lembro que alguns números do PIB têm essa tecnicalidade, usualmente não analisada pelo noticiário. Com isso, dados ajustados são tomados como os originais, num noticiário de grande repercussão. Esclarecerei esse ajuste e suas implicações na última divulgação.

ROBERTO MACEDO, O Estado de S.Paulo

17 Junho 2010 | 00h00

Foi o do PIB do primeiro trimestre de 2010, e duas taxas chamaram a atenção. Sobre o mesmo trimestre de 2009, o crescimento foi de 9%. Não cabe o ajuste sazonal, pois os trimestres comparados são os mesmos. Um número alto, mas a ser relativizado, pois que calculado sobre uma base fragilizada pela crise, que fez cair o PIB no último trimestre de 2008 e no primeiro de 2009.

Meu interesse é centrado na taxa de 2,7%, sobre o trimestre anterior, o quarto de 2009, calculada com o ajuste sazonal. Se viesse também nos trimestres seguintes, levaria a um crescimento do PIB acima de 10% ao ano, um negócio lá da China.

Por que o ajuste? Vem do interesse em conhecer os movimentos do PIB independentemente do que ocorre sazonalmente. No Brasil, em geral o PIB cai no primeiro trimestre, sobe no segundo e no terceiro e volta a cair no quarto, um pouco menos que no primeiro. As quedas coincidem com o auge do verão, férias escolares e dos trabalhadores em geral, que são, com a entressafra agrícola, algumas das causas.

Para avaliar o PIB sem esse vaivém sazonal o IBGE usa dados trimestrais do passado para calcular índices de sazonalidade. Com eles ajusta as variações do PIB em cada trimestre, relativamente ao anterior, para que reflitam o que não se explica sazonalmente.

De dados do IBGE inferi que em 2009 esses índices assumiram os valores de 0,9699, 1,012, 1,019 e 0,9993 nos quatro trimestres a partir do primeiro, respectivamente. Explicando ainda mais: tomando o primeiro trimestre, se nele o PIB fosse exatamente 96,99% do seu valor no trimestre anterior, o PIB ajustado não teria crescido nem caído nada, pois seria uma variação decorrente apenas do efeito sazonal. Se fosse acima (ou abaixo) desse valor levaria a um crescimento (ou queda) do PIB ajustado. Tecnicamente, o ajuste é feito dividindo o PIB observado trimestralmente pelo índice correspondente.

Outro aspecto interessante dos dados do IBGE é que sem o ajuste sazonal o PIB não cresceu no primeiro trimestre de 2010. Mais precisamente, o PIB observado, na forma de um número índice, caiu de 149,1 (média de 1985 = 100) no trimestre final de 2009 para 148,7 no primeiro de 2010. Com o ajuste esses números passaram para 151,3 para 155,4, respectivamente, levando à taxa de 2,7% anteriormente citada.

Chego agora aos pontos que quero pôr em discussão, a última e as próximas taxas trimestrais, com ajuste, mais a taxa anual de 2010, e o que têm que ver com toda essa história. Para que venha uma taxa positiva no trimestre corrente, o PIB observado terá de crescer mais de 1,2%, pois será dividido por um valor próximo de 1,012, o coeficiente do ano passado, que terá uma pequena alteração, pois a longa série em que se baseia receberá o dado de apenas mais um trimestre.

Ora, quanto ao atual trimestre, a avaliação predominante entre os analistas é a de que a economia continuará crescendo, mas a um ritmo menor. Sabe-se, por exemplo, que o crescimento industrial foi negativo em abril, o mesmo acontecendo com as vendas do comércio varejista. Em reunião com empresários na Associação Comercial, em vários casos foi notado um arrefecimento em maio. O índice de confiança do consumidor dessa associação mostrou queda no mesmo mês, provavelmente influenciada pelo noticiário negativo sobre a crise na Europa. O Banco Central iniciou em abril um novo ciclo de elevação da taxa de juros, jogando água fria na economia, e a inflação mais elevada corrói os rendimentos reais dos consumidores.

Mas há um fator adicional a alimentar essa perspectiva. Conforme o IBGE mostra num gráfico com início em 1995, em todos os primeiros trimestres até o primeiro de 2009 sempre houve nítida queda do PIB observado, caracterizando o padrão sazonal citado. Em 2010, ao contrário, a queda, já apontada, foi quase imperceptível, o que deve ter vindo de duas causas. Primeiro, um excepcional crescimento da economia, o diagnóstico predominante. Mas vejo outra hipótese, a de que o padrão sazonal teria sofrido alterações específicas neste ano. Em particular, pelo efeito da antecipação dos reajustes do salário mínimo e dos benefícios do INSS, que passaram a ser reajustados em janeiro, depois de uma antecipação para fevereiro, em 2009, ampliando seu "efeito caixa" no primeiro trimestre. Houve também antecipação de consumo ligada às reduções de impostos para aquisição de bens duráveis. Alterações como essas não são captadas integral e imediatamente pelo ajuste sazonal, o que pode ter levado a uma sobrestimação do PIB ajustado do primeiro trimestre deste ano.

Assim, além dessa outra lebre aqui levantada é a de que, tanto pela perda de velocidade do PIB como porque o padrão sazonal sofreu alterações não captadas imediatamente pelo seu índice, há indícios de que a economia não terá nos trimestres à frente o desempenho que muitos estão esperando, divulgando previsões de um crescimento do PIB anual em torno de 7%, com alguns chegando até a 8%.

Essa é uma questão que só será esclarecida com a divulgação do resultado do trimestre corrente, em setembro. Prometo voltar então ao assunto. Mas fica esta observação com o objetivo de conter o ímpeto de previsões como essas, e para sugerir que jornalistas e outros analistas se detenham também diante das diferenças entre o PIB observado e o ajustado.

ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), PROFESSOR ASSOCIADO À FAAP, É VICE-PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE SÃO PAULO

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