O PIB que subiu 5,7% no segundo trimestre

Volto a uma tecnicalidade do produto interno bruto (PIB) trimestral divulgado regularmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a do ajuste sazonal que ele faz dos dados originais. Já abordei o mesmo tema (17/6) quando tratei da variação do PIB no primeiro trimestre de 2010, e apontei algumas distorções desse ajuste.

Roberto Macedo, O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2010 | 00h00

A variação do PIB no segundo trimestre veio no início deste mês, acentuando distorções. Como de hábito, a divulgação e a cobertura da imprensa centraram-se na taxa de variação do PIB relativamente ao trimestre anterior, ajustada sazonalmente, que foi de 1,2%. Como outros economistas, eu esperava taxa bem menor, dados os números que alimentaram o noticiário do segundo trimestre, entre eles o desempenho da indústria, cujo índice de produção mostrou taxas negativas em abril, maio e junho.

Busquei esclarecimentos na versão completa do último documento do IBGE sobre o assunto. Nele consta que o PIB sem ajuste sazonal, ou seja, o original e verdadeiro, cresceu surpreendentes 5,7% no trimestre. Isso significa taxa anualizada próxima de 25%, que não existe nem na China, indicando que nossa economia esteve e pode estar bem mais acelerada que muitos imaginam.

Para explicar como o ajuste sazonal extraiu um crescimento de apenas 1,2% desses 5,7%, tenho de recorrer à referida tecnicalidade, e pedir paciência ao leitor, pois o assunto é um tanto árido.

Por que o ajuste é realizado? Ele vem do interesse em conhecer os movimentos do PIB independentemente do que ocorre sazonalmente. No Brasil, pelo efeito sazonal o PIB em geral cai no primeiro trimestre, sobe no segundo e no terceiro e volta a cair no quarto, menos que no primeiro. As quedas coincidem com o verão, o fim e o início de ano, as férias escolares e dos trabalhadores em geral. Junto com a entressafra agrícola nesse período, essas são algumas das causas.

Para avaliar o PIB sem essas oscilações apenas sazonais o IBGE usa dados trimestrais do passado para calcular índices de sazonalidade. Com eles ajusta as variações do PIB em cada trimestre, relativamente ao anterior, para que reflitam o que não se explica sazonalmente. Dos dados do IBGE pode-se inferir que em 2009 os índices utilizados assumiram os valores 0,9699, 1,012, 1,019 e 0,9993 nos quatro trimestres a partir do primeiro, respectivamente.

Tomando-se como exemplo o primeiro número, e de forma arredondada, com base no passado ele diz que apenas pelo efeito sazonal normalmente o PIB do primeiro trimestre é 97% da média anual. Para compensar esse efeito o valor ajustado passa a ser o observado acrescido de 3%. Com o novo valor se pode, então, verificar se o PIB encolheu ou cresceu no período, independentemente dos fatores sazonais.

Este ano, contudo, esse procedimento deve ser questionado, pois tudo indica que em 2010 o padrão sazonal sofreu alterações específicas, o que compromete em parte o uso analítico dos dados ajustados pelo padrão médio do passado. Ainda segundo esse padrão, em todos os primeiros trimestres da série do PIB trimestral sem ajuste, a qual permite comparações desde 1996, sempre houve nítida queda do PIB observado, com exceção apenas de 2010. Neste a queda foi quase imperceptível, de 0,026%, mantendo então o PIB praticamente estável, o que deve ter vindo de duas causas, um maior crescimento da economia e alterações do padrão sazonal específicas deste ano.

Quanto a estas, em particular houve a antecipação para janeiro dos reajustes do salário mínimo e dos benefícios do INSS, acentuando seu "efeito caixa" no primeiro trimestre. E, também, antecipação de consumo ligada às reduções tributárias para aquisição de bens duráveis. Alterações como essas não são imediatamente captadas pelo ajuste sazonal, o que deve ter levado a uma sobrestimação do PIB ajustado do primeiro trimestre deste ano. Nele a estimativa do IBGE alcançou 2,7%, também bastante elevada, pois equivale a uma taxa anual superior a 10%.

Já no resultado do segundo trimestre, o IBGE tomou o índice do PIB observado (que mostrou o citado crescimento de 5,7% no trimestre), tirou dele cerca de 1,2% pelo ajuste sazonal (pois no segundo trimestre o PIB em geral sobe pelo efeito sazonal) e, ao compará-lo com o PIB ajustado do trimestre anterior, a meu ver, sobrestimado, encontrou apenas 1,2% de crescimento.

Se o leitor suportou toda essa história até aqui, peço mais dois parágrafos de paciência para chegar aos "finalmentes".

Primeiro, um resumo. A realidade é o PIB observado; o ajustado baseou-se num passado sazonal que não se repetiu este ano, particularmente no primeiro trimestre; com isso o PIB ajustado do primeiro trimestre foi artificialmente elevado; por essa razão, quando o ajustado do segundo foi comparado com ele, revelou uma taxa muitíssimo menor que a do PIB de fato observado no trimestre passado.

Segundo, isso acontecendo, sobreveio um diagnóstico equivocado da velocidade recente do PIB, subestimando-a, embora extraordinariamente elevada, o que tem implicações importantes. Entre elas, quanto às previsões do PIB para este ano, o mercado financeiro está prevendo uma taxa de 7,5%. Contudo, pelas minhas estimativas, basta que o PIB observado siga daqui para a frente apenas seu padrão sazonal, isto é, sem nenhum crescimento acima dele, para que a taxa anual alcance 8,2%. E mais: o próprio Banco Central usou dados do PIB ajustado, e também de seu próprio índice, o Índice de Atividade Econômica (IBC-Br), igualmente ajustado, que mostraram crescimento moderado, para argumentar pela estabilidade da taxa Selic na decisão que tomou em 1.º de setembro, sem atentar para o fato de que no primeiro semestre as informações do PIB observado revelaram um quadro bem distinto, de um crescimento bem maior.

ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), PROFESSOR ASSOCIADO À FAAP, É VICE-PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE SÃO PAULO

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