O pior num cenário ruim

Por causa dos maus resultados que acumulou nos primeiros quatro anos do governo Dilma Rousseff, o Brasil vai se transformando numa referência negativa da economia mundial. Quando o desempenho de outros países é ruim ou não corresponde ao esperado, o do Brasil é ainda pior. Isso tem ocorrido quando se comparam dados internacionais de crescimento, inflação ou política fiscal. O exemplo mais recente de comparações internacionais que mostram a deterioração mais acentuada das condições econômicas do Brasil do que as de outros países está nos dados e projeções do comércio internacional que acabam de ser divulgados pela Organização Mundial do Comércio (OMC).

O Estado de S.Paulo

20 Abril 2015 | 02h04

O desempenho do comércio mundial no ano passado, com expansão de apenas 2,8% em valor, foi bem inferior ao da média dos dez anos entre 2005 e 2014, quando a expansão foi de 7% ao ano. Num cenário pouco animador, o Brasil registrou a maior queda das exportações entre as 30 principais economias exportadoras do mundo. Em 2014, quando as exportações mundiais cresceram 1%, o total exportado pelo País, de US$ 225,1 bilhões, foi 7% menor do que o de 2013, de US$ 242,5 bilhões.

Nos últimos anos, como observou o diretor-geral da OMC, o diplomata brasileiro Roberto Azevêdo, o crescimento do comércio mundial tem sido decepcionante, em razão da desaceleração econômica provocada pela crise financeira. A acentuada queda dos preços internacionais do petróleo (de 47% entre julho e dezembro do ano passado) e o que a OMC chama de "debilidade" dos preços de outros produtos básicos também reduziram o dinamismo do comércio internacional. A situação tende a melhorar um pouco em 2015, mas menos do que a OMC esperava há algum tempo - ela reviu de 5% para 3,3% sua projeção para o aumento do comércio mundial neste ano. Para 2016, projeta-se aumento maior, de 4%, mas ainda abaixo da média dos últimos 10 anos.

Para o Brasil, a recuperação será bem mais lenta. "O Brasil, como outros países sul-americanos e de outras regiões, sofreu com a queda nos preços de commodities em 2014 e vemos que esse fenômeno pode continuar a afetar no futuro próximo", advertiu Azevêdo. Em 2015 e 2016, os países sul-americanos terão o pior desempenho do mundo, com aumento de seu comércio exterior de apenas 0,2% neste ano e de 1,6% no próximo. O grande responsável por esses resultados fracos será o Brasil.

A China, que tem sido um dos principais destinos das exportações brasileiras, está importando menos. É a consequência da redução do crescimento econômico. Em março, as importações chinesas encolheram 12,7%, na comparação com março de 2014. Embora no primeiro trimestre deste ano tenha reduzido em 40% (em volume) as importações de carvão, na comparação com as compras do período janeiro-março de 2014, a China importou mais minério de ferro - principal produto da pauta de exportações do Brasil para o país. O aumento em março, na comparação com março de 2014, foi de 8,9%. Mas, em valor, as compras chinesas encolheram, pois a cotação do minério de ferro caiu 19% só em março, baixando para o menor nível desde 2008.

Tendo perdido competitividade e mercado no comércio de bens industrializados - que tende a ser mais estável do que o de commodities, tanto em volume como em valor -, o Brasil não tem meios para compensar a queda do valor das exportações de produtos primários. Por isso, nos últimos quatro anos, vem perdendo posições na classificação dos maiores exportadores mundiais. É uma mudança em relação à tendência observada na primeira década do século 21. Em 2001, o Brasil detinha 0,9% do comércio internacional e era o 28.º maior exportador. Em 2005, com 1,1% do comércio mundial, era o 25.º maior exportador. Sua participação continuou a crescer, até alcançar 1,3% do total comercializado em todo o mundo. A queda dos preços do minério de ferro, do aço, do açúcar, da soja e outros contribuiu fortemente para mudar a tendência. Mas a OMC aponta para outro problema: também em volume as exportações brasileiras estão diminuindo.

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