O PMDB força a mão

Já se disse, mas não custa repetir: com aliados como esses, Dilma não precisa de inimigos. "Esses", naturalmente, são os integrantes da bancada de 75 deputados do PMDB, liderados pelo carioca Eduardo Cunha. Nem ele nem o titular da Câmara, o também peemedebista Henrique Eduardo Alves, deram o ar de sua graça na solenidade em que a presidente Dilma Rousseff empossou os seus seis novos ministros, entre eles dois oferecidos pelo PMDB, Néri Geller (Agricultura) e Vinicius Lages (Turismo).

O Estado de S.Paulo

19 Março 2014 | 02h08

O partido não ganhou nem perdeu Pastas: ficou com as cinco que detinha. Mas, na relação de forças no âmbito da representação parlamentar da sigla, os deputados perderam.

Embora na partilha do butim ministerial Agricultura e Turismo façam parte da "cota" do PMDB na Câmara, nem Geller nem Lages foram indicados pela bancada. O primeiro foi patrocinado pelo ruralista Blairo Maggi, senador pelo PR, com o endosso da direção nacional peemedebista - leia-se o vice-presidente Michel Temer e o seu substituto no comando partidário, senador Valdir Raupp. O segundo teve como padrinho o presidente do Senado, Renan Calheiros, outro luminar do PMDB.

A grosseria dos dois Eduardos, o Alves e o Cunha, que arranjaram desculpas deliberadamente pífias para a sua ausência no evento em palácio, aguou as expectativas de que o pior do conflito de Dilma com os condutores do carro-chefe da base aliada na Câmara estava em vias de passar. O blocão de oito bancadas empilhado por Cunha para sabotar a presidente começou a encolher quando o governo passou a liberar as verbas retidas para os projetos oriundos de emendas parlamentares.

Ao mesmo tempo, Dilma tratou de chamar às falas os dirigentes de outros partidos que embarcaram na provocação, alguns contemplados no novo Gabinete, mais suscetíveis do que o PMDB às pressões do Planalto.

Daí o não comparecimento da dupla eduardiana deixar no ar a suspeita de que há algo escuso no reino aliado, sob a regência do beligerante Cunha. Claro que existem e não são poucas as ambições eleitorais conflitantes de peemedebistas e petistas nos Estados - apontadas como a causa estrutural das vendetas contra a presidente. Para os primeiros, a relutância dos outros em apoiar os seus candidatos nos Estados de maior densidade eleitoral, como o Rio de Janeiro, teria duas intenções inaceitáveis. A primeira, enfraquecer o PMDB pela base: a sua expressão no plano nacional depende do poder que conseguir acumular na esfera local.

Observadores independentes lembram, no entanto, que em 2010 o PT foi a sigla que mais deu apoio a candidatos peemedebistas a governador - sete. A segunda intenção, conexa à anterior, seria o plano petista de eleger para a Câmara uma bancada superior à dos atuais 87 membros, para tomar do PMDB a presidência da Casa. Fontes petistas de cabeça fria estimam que são remotas as chances de sua bancada chegar a 130 deputados, como imaginavam os companheiros megalômanos, antes de tomar o choque de realidade dos protestos de junho passado e da consequente queda da popularidade de Dilma - parcialmente recomposta.

Pode ser um despiste para reconduzir o PMDB ao bom caminho. Mas, se o boicote a Dilma na Câmara tem razões camufladas, isso de pouco adiantará. Especula-se que a campanha tem que ver com um projeto tão crucial para o governo como cercado de poderosos interesses, a que o partido não estaria alheio. Trata-se do Marco Civil da Internet, que a presidente quer sancionar até abril, quando o Brasil sediará uma grande conferência internacional sobre a internet. Cunha ameaça impedir a aprovação do texto a menos que o governo desista da passagem à qual as teles se opõem e Dilma considera inegociável.

É a que obrigará os provedores a oferecer a todos os usuários o mesmo padrão de conexão e a cobrar deles o mesmo preço seja qual for o conteúdo acessado. Com a corda esticada, Dilma imagina assustar o PMDB ao dizer, como na posse dos ministros, que "o povo sabe muito bem quem está do lado dele". Pode esquecer.

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