O potencial efeito Marina

Quiseram as circunstâncias objetivas, os fatos duros da vida e a intenção de certos atores que as eleições presidenciais de 2010 tivessem caráter plebiscitário: contra ou a favor da situação atual, ainda que não esteja claro nem se essa é uma situação desejável, nem quem responde por ela. Eleições desse tipo concentram holofotes em dois candidatos, mas não expulsam necessariamente outros postulantes. Sempre pode haver "terceiros nomes".

MARCO AURÉLIO NOGUEIRA, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2010 | 00h00

Na maioria dos casos, candidatos a "terceiros" não entram na disputa com a pretensão de vencê-la. Vencer, para eles, é conseguir um lugar ao sol: exposição pública, mais espaço para a propaganda de suas ideias ou acúmulo de "gordura" para negociar apoios num eventual segundo turno. Tudo somado, compõem um agregado de coadjuvantes que podem interferir no debate principal e até chegar a condicioná-lo. Podem também prejudicá-lo, evidentemente.

De todos os "terceiros" que surgiram e se mantêm na atual disputa presidencial brasileira, Marina Silva é a única em condições de cumprir algum papel de relevo, uma função positiva, capaz de repercutir na dinâmica democrática mais geral e mesmo influenciar o debate político que ocorrerá ao longo do ano.

Primeiro de tudo, porque se trata de uma candidatura eminentemente programática, sustentada por uma agenda ambientalista sedutora e por sua biografia, que parece tão íntima de sua causa que chega a se confundir com ela. É uma agenda estratégica, que faz alertas importantes a respeito das opções econômicas que são feitas no mundo e transfere atenção crítica para o debate sobre o desenvolvimento e a "aceleração do crescimento", questões que são invariavelmente debatidas sem a devida responsabilidade ética para com o futuro. Num contexto em que "desenvolvimento" virou a chave mestra que abrirá as portas do paraíso, não deixa de ser importante que alguém apresente o contraditório.

Por ser eminentemente programática, Marina flutua sobre partidos e alinhamentos políticos rígidos. Passa a imagem de que está acima das práticas políticas usuais. Com isso pode atrair eleitores cansados do discurso político rotineiro e sem graça, que pensam que se deve fazer política de outro modo ou simplesmente não querem saber de política. Dissidente do PT, não faz o tipo ressentida: mantém importantes pontes de comunicação com o povo petista e emprega uma linguagem crítica favorável ao resgate das tradições mais combativas do partido, desbaratadas após oito anos de governo Lula.

Nas entrevistas e intervenções que vem protagonizando, a candidata do PV tem demonstrado estar atenta a esse papel positivo de "terceiro nome". No último domingo, por exemplo, declarou ao Estado que sua candidatura não existe para "fazer o jogo de Dilma ou de Serra", mas para defender "um projeto político para o Brasil, já que os partidos, inclusive o PT, não foram capazes de atualizar seu pensamento". Para isso Marina acredita que é preciso buscar interações permanentes com o que chama de "comunidades de pensamento", ambientes que estariam acima de partidos políticos e se sustentariam por vínculos com "causas e princípios". Por esse caminho, acrescenta, pode-se chegar a uma "nova visão de como resolver os problemas do Brasil", a partir da identificação das conquistas que os sucessivos governos (FHC e Lula) conseguiram alcançar.

Em sua agenda "não há espaço para aventuras". É preciso manter a estabilidade mediante superávits primários, metas para a inflação e câmbio flutuante. Seu propósito é mudar o modelo de desenvolvimento, levando o País a se concentrar em atividades que produzam menos impactos no meio ambiente. Vai direto ao ponto, como na entrevista à revista Exame (17/5): "Precisamos mudar a ideia de desenvolvimento." Coisa fácil de falar e difícil de praticar.

Isso talvez explique por que o discurso da candidata permanece num terreno genérico demais quando se trata de detalhar ou enfrentar questões complicadas, caso da reforma tributária, da previdência e da legislação trabalhista. Ela se esquiva dizendo que suas propostas ainda estão em construção. Ainda que um pouco de imprecisão e de convicção de que não é preciso ter respostas para tudo confira certo charme, em algum momento as cartas terão de ser postas na mesa.

Marina Silva não voa em céu de brigadeiro. Tem pontos frágeis complicados, que poderão conter sua contribuição ao debate presidencial. O mais grave deles é a falta de uma estrutura de campanha. Ela não dispõe de recursos financeiros, palanques suficientes nem tempo de televisão. Está cercada de bons assessores técnicos e intelectuais, mas ressente-se de assessoria política, o que é compreensível, dada a escassez de quadros com esse perfil em seu arco de alianças e especialmente em seu partido.

Há também o elemento religioso, sua formação evangélica. Marina flerta com o criacionismo, declarando sem vacilação que "Deus criou todas as coisas". Tem preparo e inteligência suficientes para saber que há aí um obstáculo a ser neutralizado, sob pena de sofrer alguma resistência da parcela mais "racional" do eleitorado e de limitar sua abordagem dos pontos mais complexos e controvertidos da agenda contemporânea: aborto, experimentação genética, usos da ciência, inovação tecnológica.

Apesar disso, e por não estar na disputa para somar votos, e sim para marcar posição, Marina pode fazer alguma diferença numa eleição que se anuncia como fadada a se decidir nos últimos minutos. Se conseguirá fazer isso é algo que depende muito de sua própria capacidade de explorar as virtudes que a engrandecem e superar os pontos frágeis que a limitam. Mas depende também dos rumos que a disputa tomará quando os exércitos plebiscitários entrarem de fato na luta.

Seu real efeito sobre o processo eleitoral ainda está em aberto.

PROFESSOR TITULAR DE TEORIA POLÍTICA DA UNESP. E-MAIL: M.A.NOGUEIRA@GLOBO.COM

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