O preço da dependência

A decisão do governo do PT de tornar a economia brasileira cada vez mais dependente da argentina está impondo um alto preço justamente para o setor industrial mais privilegiado por Brasília desde 2003: a indústria automobilística. A crise da Argentina fez cair bruscamente as exportações brasileiras de veículos e de componentes e já afeta o nível de emprego em toda a cadeia produtiva de automóveis e de caminhões. Por ironia, este é o setor em que, há mais de 30 anos, as lutas sindicais propiciaram o surgimento do PT e de algumas de suas maiores lideranças e, por essa razão, tem merecido atenção especial das administrações petistas.

O Estado de S.Paulo

21 Outubro 2014 | 02h05

A indústria automobilística, como os demais segmentos industriais, está sendo mais afetada pela crise da economia brasileira do que outros setores. Nos nove primeiros meses deste ano, foram produzidos 481,5 mil veículos menos do que no período janeiro-setembro de 2013. O nível de emprego nas montadoras registrou sete quedas seguidas nos últimos meses e está no ponto mais baixo desde 2012. O desemprego seria maior e os problemas para os trabalhadores ainda mais dramáticos se as empresas nãos estivessem adotando medidas como suspensão temporária de contratos, férias coletivas e programas de demissão voluntária, enquanto aguardam a redução dos estoques acumulados nos seus pátios e nas concessionárias.

Se o governo petista não tivesse escolhido a Argentina - cujo governo é chefiado pela família Kirchner desde 2003, ano em que o PT assumiu o poder em Brasília - como parceira preferencial, os problemas da indústria automobilística não seriam tão graves como são. Como mostrou reportagem de Cleide Silva publicada no Estado (15/10), da quebra de produção registrada até agora, um terço se deve à redução das exportações para a Argentina.

Por causa da crise no principal parceiro comercial do Brasil no Mercosul - e cujos efeitos o governo Cristina Kirchner vem tentando encobrir com medidas ainda mais danosas, como o controle estrito das importações, sobretudo as procedentes do Brasil -, caiu muito a exportação de carros para lá. Contrariando os princípios da união aduaneira em que teoricamente se transformou o Mercosul, o Brasil concordou em renovar, em junho, o acordo automotivo com a Argentina, que estabelece determinada proporção para as exportações de cada país. Mesmo assim, o total de veículos exportados para a Argentina nos nove primeiros meses de 2014 diminuiu em 155 mil unidades na comparação com igual período de 2013. A Argentina está sem dólares para pagar todas as importações de que necessita.

Perdas como essas poderiam ser compensadas com vendas para outros mercados. Economias mais preparadas para exportar decerto teriam feito isso. Mas o Brasil, sob o governo do PT, concentrou todo o esforço exportador no Mercosul - e especificamente na Argentina, no caso da indústria automobilística, com a concordância das empresas brasileiras.

Os números resultantes dessa opção petista pela Argentina são impressionantes. Em 2003, primeiro ano dessa parceria de inspiração ideológica entre os governos petista e kirchnerista, a Argentina absorvia 18,5% das exportações brasileiras de carros; no ano passado, cerca de 80% dos veículos exportados pelo Brasil tiveram o país vizinho como destino. Outros mercados foram abandonados pelo Brasil. Em 2003, o mercado americano absorveu 8,4% dos carros exportados pelo Brasil; no ano passado, não se exportou nenhum veículo para os Estados Unidos. Países da América do Sul, naturais parceiros comerciais do Brasil, como Colômbia, Uruguai, Equador e Chile, foram praticamente ignorados nos últimos anos.

Com o agravamento da crise argentina e da notável redução de sua capacidade de importação, a Anfavea, associação que representa as montadoras instaladas no Brasil, tenta fechar acordos com os países que vinha ignorando. Não é impossível reconquistá-los, mas, tendo eles se acostumado a importar de outros países, que oferecem produtos mais seguros e modernos e a preços competitivos, a tarefa não será fácil.

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