O preço da segurança

Embora sejam mais poluentes, produzam energia mais cara e tenham sido concebidas para operar em situações de emergência, as usinas termoelétricas tiveram papel essencial nos últimos três anos para evitar o colapso no abastecimento de energia elétrica, aumentaram substancialmente sua participação na capacidade nacional de geração e serão cada vez mais acionadas daqui para a frente. É muito provável que, no Plano Nacional de Energia a ser anunciado no início de agosto, haja uma grande mudança na orientação do governo em relação à participação das diferentes fontes na expansão do setor elétrico nos próximos anos, com o aumento da participação das usinas termoelétricas e a consequente redução do papel das hidrelétricas. O que até agora era uma medida de emergência consolida-se como solução para o futuro do sistema elétrico nacional.

O Estado de S. Paulo

29 Junho 2015 | 03h00

O risco de ocorrência de blecautes afetando áreas cada vez mais extensas do território nacional por causa do atraso do programa de geração e transmissão de energia - agravado pela desastrosa política de redução tarifária, que desorganizou o setor, e pela escassez de chuvas nas principais regiões produtoras -, forçou o governo Dilma Rousseff a colocar em operação as usinas termoelétricas com mais frequência e por períodos cada vez mais longos. Foi uma opção pela segurança da operação do sistema, em detrimento do preço da energia - o que, na prática, contribuiu para inviabilizar a política de modicidade tarifária que Dilma exibiu imprudentemente durante sua campanha pela reeleição.

É a segurança do sistema que balizará os próximos leilões para a contratação de energia no curto e no médio prazos, em substituição ao critério de fornecimento da energia mais barata, como mostrou reportagem de André Borges e Anne Warth publicada pelo Estado. Essa preferência deverá constar do novo plano de energia. Em termos práticos, significa que, em vez de contratar energia de fontes tradicionalmente mais baratas - como eólicas e hídricas -, o governo concentrará sua escolha na contratação de energia de usinas termoelétricas. Mas estas serão alimentadas a gás, e não mais por óleo combustível ou diesel, para reduzir a emissão de poluentes.

Se essa preferência for confirmada no plano a ser anunciado dentro de um mês, a participação das térmicas na geração de energia elétrica crescerá ainda mais. Entre 2011 e abril último, essa participação saltou de 7,7% para 29,6% da capacidade instalada. A das hidrelétricas, em compensação, baixou de 91,9% para 66,1%.

Até agora, o aumento da participação das usinas térmicas tem sido forçado pela queda do nível dos reservatórios das Regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste e pela necessidade de reposição da energia que deixou de ser produzida pelo sistema em razão dos problemas causados pelo modelo elétrico de Dilma Rousseff. Também contribuiu para isso o atraso nos cronogramas de obras essenciais, e de grande porte, como as das Usinas de Santo Antônio, Jirau e Belo Monte, bem como de linhas de transmissão.

Daqui para a frente, com o novo papel que as usinas térmicas terão, o acréscimo de sua participação decorrerá de escolhas feitas pelo governo do PT para a expansão do sistema elétrico nacional. A principal delas foi a opção pelas usinas a fio d’água, que dispensam reservatórios ou dispõem de reservatórios pequenos, capazes de armazenar água para apenas algumas horas ou dias de operação. Esse modelo permite que as usinas - como a maioria das novas hidrelétricas - gerem, em média, pouco mais de 40% de sua capacidade. O aumento do consumo tem sido maior do que o da capacidade de geração hidrelétrica. Daí a necessidade de recorrer às térmicas, de operação mais constante que as eólicas.

Não é uma mudança neutra, como os consumidores já sentiram pela notável alta da conta de luz nos últimos tempos - alta agravada, ressalte-se, pelas correções decorrentes dos acertos necessários para restabelecer o equilíbrio financeiro das empresas do setor, fortemente abalado pela queda forçada das tarifas em 2013 e pelas perdas impostas pelo modelo elétrico do governo.

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