O preço de eleger 'postes'

Logo depois de ser eleito prefeito de São Paulo, Fernando Haddad declarou ser "o segundo poste de Lula". Modéstia? Presunção? Nada disso. Não passava de uma ironia contra seus adversários e também um modo de agradecer ao seu "patrono". Ser o "segundo" era o mesmo que colocar-se numa fila na qual atribuía a Dilma Rousseff o lugar de "primeiro poste".

Carlos Matheus, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2014 | 02h05

Eleger postes é uma antiga gíria política para dar um significado popular àquilo que em Ciência Política se denomina transferência de voto - processo em que um líder com alguma ou muita popularidade sugere aos seus eleitores a adesão a alguém de sua confiança. Para que haja a transferência de voto é necessário forte empenho pessoal de quem dispõe de suficiente popularidade para tanto.

Dilma e Haddad não foram os primeiros "herdeiros" de votos no Brasil contemporâneo. Getúlio Vargas influiu na eleição de Eurico Dutra. Ademar de Barros transferiu sua influência política para Lucas Garcez e Carvalho Pinto fez o mesmo em relação a José Bonifácio Coutinho Nogueira. Com todos esses que foram apoiados por seus respectivos antecessores houve problemas: Dutra realizou um governo tão medíocre a ponto de favorecer o retorno de Vargas; Garcez entrou em conflito direto com seu patrono, ganhando a imagem de ingratidão e até de traição; e Coutinho Nogueira foi derrotado por Ademar. Algo semelhante ocorreu depois da ditadura militar. Fleury tornou-se inimigo de Quércia, seu patrono eleitoral; a eleição de Pitta contribuiu para o declínio da imagem de Maluf, seu padrinho político.

Algo semelhante ocorreu com a atual presidente da República. Eleita por transferência de voto de seu antecessor, tornou-se devedora e dependente do apoio recebido. Seu mandato foi uma continuidade do governo do seu patrono político, mas sua popularidade inicial desmoronou subitamente, depois das manifestações de 2013, sem retornar aos níveis anteriores. E, às vésperas do segundo turno, corre risco de ser derrotada por um candidato até então desconhecido da maioria dos brasileiros, já que detinha menos de 20% dos votos no primeiro turno. Os motivos estão na fragilidade inerente ao processo de transferência de voto. Segundo Maquiavel, há duas vias de acesso ao poder: pela força e pelo mérito. Nos sistemas democráticos, o mérito pessoal dos candidatos é fundamental e se relaciona a serviços anteriormente prestados e suficientemente conhecidos pelo eleitorado.

A transferência de voto é bem mais do que um apoio: é um atestado de confiança semelhante ao que é dado por um avalista ou um fiador. É uma garantia de sucesso sem prova anterior. Por isso toda transferência de voto é fraca. Não tem a força de quem conquista prestígio popular por mérito próprio. É um empréstimo de popularidade sujeito a comprovação. É um desafio para quem recebe porque cria uma fragilidade difícil de ser superada em momentos de crise, por suspeita de incapacidade e de autonomia na tomada de decisões.

Esse é o caso de Dilma Rousseff. Saiu das sombras do ministério que ocupava para se tornar candidata de seu antecessor. A este coube a tarefa de revelá-la ao eleitorado brasileiro. Lula empenhou-se pessoalmente na justificação de sua escolha e contribuiu decisivamente para que fosse eleita, ficando ela dependente dos méritos e deméritos de seu avalista político. Os transtornos que atingiram o governo de seu antecessor fragilizaram sua imagem, acentuando sua dependência de quem a elegeu.

Todo político eleito por transferência de voto se torna vítima desse desgaste decorrente da falta de méritos próprios. Antes de chegar à Presidência da República, Dilma só ocupara cargos nomeados. Jamais concorrera a um cargo público em eleição popular. Sua carreira política fora feita nas sombras da ditadura militar e também do período de retorno à democracia.

Toda eleição tem o papel de exaltar ou condenar a carreira política de seus competidores. Há candidatos que, sendo eleitos, acabam decepcionando e há candidatos que, sendo derrotados, se tornam vitoriosos posteriormente. Esse foi o caso de Lula: derrotado três vezes, ganhou crescente prestígio que, finalmente, o conduziu à Presidência. A diferença entre Dilma e Aécio Neves reside nisso. Aécio teve uma carreira política própria, sem depender de apoios alheios. Depois de ter sido prefeito e governador, tornou-se candidato à Presidência da República, numa carreira semelhante à de outro mineiro que chegou à Presidência: Juscelino Kubitschek.

Quem é eleito pelo voto popular adquire algo significativo quanto aos méritos pessoais apontados por Maquiavel. São méritos que passam a fazer parte de sua imagem pública. Esse foi o fator que levou Leonel Brizola à vitória em 1982. Concorrendo com candidatos que jamais haviam sido eleitos pelo voto popular, demonstrou ter méritos próprios ao bradar pela TV a frase "eu já estive lá" para informar aos cariocas e fluminenses que já havia sido eleito governador do Rio Grande do Sul.

Ser eleito por transferência de voto gera uma ambiguidade incômoda: tudo o que fizer com aprovação popular agrega méritos ao antecessor, mas sofre também o declínio da imagem deste. Dilma vive um difícil dilema político: não se afastar de Lula nem pedir novamente seu apoio, o que deixa exposta sua fragilidade pessoal. O voto nos regimes democráticos tem o papel de um julgamento em que os vitoriosos precisam provar que mereceram ser eleitos e os derrotados passam pelo crivo dos julgamentos futuros que lhes abrirão ou fecharão as portas de acesso ao poder.

Ter sido eleita por méritos de Lula tornou-se para Dilma mais obstáculo do que vantagem: se reeleita, o mérito será de Lula e, se derrotada, será por falta de méritos próprios.

*Carlos Matheus é ex-diretor do Instituto Gallup e ex-professor titular de Ética e Filosofia Política da Puc-SP 

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