O problema dos motociclistas

Já é mais do que tempo de pensar seriamente numa forma mais adequada de tratar dos vários aspectos da nova realidade do transporte na capital paulista, constituída pelo grande crescimento da frota de motocicletas, que deve atingir neste mês de fevereiro a marca de 1 milhão de veículos. Essa projeção foi feita pelo Estado com base na média de 2.760 motos novas que entraram em circulação a cada mês no ano passado. Havia na capital, em outubro, 990 mil.

O Estado de S.Paulo

09 Fevereiro 2014 | 02h08

Tão importante quando o número absoluto é a taxa anual de aumento dessa frota, de 3,6%. Ela é quase o dobro da taxa dos carros, que foi de 1,9% entre 2011 e 2012. Seu crescimento é rápido - passou de 756 mil em 2008 para o esperado 1 milhão deste mês. Ou seja, a continuar assim, as motos estão destinadas a ocupar, em breve, lugar cada vez mais importante na frota de veículos de transporte individual de São Paulo.

Até agora, contudo, as autoridades não parecem ter atentado devidamente para as características e consequências dessa mudança nos meios de transporte da capital. Em 2013, no âmbito da administração municipal, a principal medida destinada ao mesmo tempo a estabelecer um pouco mais de disciplina para os motociclistas e a aumentar sua segurança foi a criação de 103 bolsões para as motos pararem na frente dos carros, enquanto aguardam a abertura do sinal. "Não vejo política pública avançada para motocicleta. O que a Prefeitura faz são coisas tímidas", afirma a respeito o presidente do Sindicato dos Motoboys (Sindimoto), Gilberto Almeida dos Santos.

Embora a categoria que ele representa não se destaque por um comportamento adequado no trânsito nem pelo acatamento da lei que regulamenta sua atividade, nesse caso ele tem razão. O comportamento das autoridades em geral, não apenas as municipais, tem sido mesmo tímido no trato dessa questão. Um bom exemplo disso - que certamente desagrada ao presidente do Sindimoto - é a falta de firmeza na fiscalização da lei que estabeleceu uma série de exigências para os motoboys, tais como a de frequentar um curso de 30 horas sobre segurança no trânsito e como se comportar para respeitar os direitos dos pedestres e motoristas de outros veículos, assim como instalação de antena que corta linha de cerol e uso de proteção nas pernas.

Embora a maior parte das medidas se destine a aumentar sua segurança, tendo em vista o elevado número de acidentes com mortos e feridos envolvendo as motos, os motoboys resistem a acatá-las, alegando que acarretam custos elevados para eles. Há exatamente um ano, em fevereiro de 2013, uma manifestação de motoboys, pedindo mais tempo para se adaptar à lei, parou durante várias horas a Avenida Paulista. O prazo-limite dado então para a efetiva aplicação da lei, com multas para os infratores, está terminando neste mês e até agora não há sinal de que as autoridades vão agir para que isso aconteça.

O poder público também parece não se ter dado conta das importantes mudanças ocorridas dentro do próprio grupo dos motociclistas. A principal delas é que os motoboys, ou seja, os que usam o veículo profissionalmente, se tornaram minoria. A grande maioria é hoje constituída por pessoas que utilizam a moto como meio de transporte de casa para o trabalho ou para a escola. Não por acaso, um estudo da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), feito em 2011, indicava que, dos 512 motociclistas mortos naquele ano, apenas 8% eram motoboys.

Isto indica claramente que, além de mais numerosos, os demais motociclistas se comportam de forma tão ou mais imprudente no trânsito. O papel de vilão passou a ser mais deles que dos motoboys. Sobram razões, portanto, para que eles sejam submetidos às mesmas regras, e com fiscalização igualmente rigorosa, dos motoboys. E um estudo do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas, feito em 2013, chama a atenção para outro dado inquietante do problema - o elevado número de motociclistas acidentados que consomem álcool e drogas.

O problema dos motociclistas, que chegam a 1 milhão, é um desafio e tanto.

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