O protesto dos caminhoneiros

De concreto, os caminhoneiros que vêm bloqueando estradas em diversos Estados - em protesto contra o aumento dos combustíveis e a baixa remuneração de seus serviços, entre outros motivos - só estão conseguindo violar a liberdade de locomoção de muitos brasileiros, provocar desabastecimento e paralisar indústrias por falta de matéria-prima ou de meios para escoar a produção. De sua confusa e contraditória pauta de reivindicações, terão atendidos muito poucos itens, se algum o for, pois seus problemas - reais, reconheça-se - não se resolvem com decisões administrativas. São consequência da crise econômica: falta carga para transportar.

O Estado de S.Paulo

25 Fevereiro 2015 | 02h05

Sem solucionar os problemas dos caminhoneiros, os bloqueios criam imensas dificuldades para outros brasileiros. Já falta combustível em diversas localidades do Paraná. Indústrias em diferentes Estados estão reduzindo o ritmo de operação, porque estão ficando sem matéria-prima e componentes, retidos nos bloqueios. Para os caminhoneiros, a interrupção do fluxo nas estradas resultará em mais problema, como a necessidade de defender-se nas ações abertas na Justiça pela Advocacia-Geral da União em sete Estados pedindo a liberação das estradas bloqueadas para assegurar aos cidadãos o direito constitucional de ir e vir.

O movimento começou sem alarde, há alguns dias, com manifestações de caminhoneiros autônomos do sudoeste do Paraná, que protestavam contra o aumento do diesel e pediam um preço mínimo por quilômetro rodado. No início, os bloqueios se limitavam a alguns trechos no Paraná da BR-163, rodovia que, com essa denominação, se estende do Pará ao Rio Grande do Sul, servindo importantes regiões agrícolas do Centro-Oeste e do Sul.

Logo o movimento se espalhou. Na segunda-feira, havia bloqueios em pelo menos oito Estados. Em Minas, a Rodovia Fernão Dias, que liga Belo Horizonte a São Paulo, foi bloqueada em cinco pontos. Nos bloqueios, os manifestantes retêm os caminhões, mas permitem a passagem de ambulâncias, ônibus e automóveis. Mesmo assim, formaram-se filas de até 19 quilômetros.

Os caminhoneiros não têm uma pauta única de reivindicações. Os do oeste do Paraná e de Santa Catarina relacionaram, entre as exigências, a fixação do frete por quilômetro rodado, prazo de carência de seis meses a um ano nos financiamentos de veículos de carga, aposentadoria integral para os motoristas profissionais com 25 anos de contribuição, redução do preço dos combustíveis e sua indexação ao preço internacional do barril de petróleo.

Em boa parte, são reivindicações indefensáveis. Caminhoneiros e outros consumidores nada disseram sobre a relação entre o preço interno dos combustíveis - severamente comprimido pelo governo durante anos - e o do petróleo quando este custava mais de US$ 100 o barril (hoje custa cerca de US$ 60). Tabelamento de preços não funciona numa economia livre e desorganiza o setor no qual ele é aplicado. Aposentadorias especiais geram privilégios que o contribuinte não tem mais condições de pagar.

O grande problema dos caminhoneiros decorre da crise. Em agosto de 2014, as rodovias pedagiadas do País registraram o pior fluxo de veículos pesados em dois anos. Os dados consolidados do ano passado, compilados pela Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias, mostram um aumento de 2,4% no número de veículos que passaram pelos pedágios, mas essa alta se deve à movimentação de veículos leves, sobretudo automóveis. Já o fluxo de veículos pesados diminuiu 2,6% em relação a 2013.

A queda no movimento de veículos de carga resulta da redução dos pedidos de frete, causada pelo declínio da produção industrial e da desaceleração do comércio. A massa salarial continua a crescer, sustentada pelo aumento do rendimento real médio, o que estimulou o tráfego de veículos de passeio, daí o aumento no movimento total nas rodovias.

De que adianta tabelar o frete se falta carga? A alta do combustível apenas tornou agudo um problema que os caminhoneiros já vinham enfrentando.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.