O PT, o PSDB e o mercado político

Tumulto e apreensão com a sugestão de Fernando Henrique Cardoso para que o PSDB pare de buscar os votos do "povão" e se concentre na classe média. Tentemos entender política como um mercado, como quase tudo na vida moderna. Há mercados para sanduíches, roupas, perfumes, joias, salvação eterna. E também para leis e políticas públicas. O mercado destas duas é a política.

Alexandre Barros, O Estado de S.Paulo

11 Maio 2011 | 00h00

Partidos buscam, como empresas, o aumento de sua fatia de mercado e dos lucros (sem bandalheiras). A vitória é o poder. Mas há uma diferença: a política é um mercado futuro. Os compradores só podem comprar a cada quatro anos no âmbito federal, pagando adiantado.

Partidos oferecem produtos de livre escolha dos consumidores (como religiões diversas oferecem a oportunidade de salvação eterna). Às vezes, mudam os produtos. São apostas no gosto dos consumidores, mesmo depois da eleição. O teste será a eleição seguinte.

Lula fez isso em 2002. Optou por mudar o produto que o PT ofereceria aos seus consumidores. Mudou a agenda econômica para oferecer um produto parecido com o do antecessor (estabilidade da moeda e controle severo da inflação) e mais políticas sociais. Acertou em ambos os casos. Foi reeleito em 2006 e fez a sua sucessora em 2010.

Nesse meio tempo seu principal concorrente, o PSDB, não conseguiu encontrar o produto que os consumidores desejavam. Naufragou com Geraldo Alckmin uma vez e duas com José Serra. Os consumidores rejeitaram os produtos e não gostaram das embalagens.

A Presidência da República é o grande mercado. Há outros menores ou secundários, que são menos importantes, Deles se ocupam o PMDB e, cada vez menos, o DEM. Todos oferecem os produtos que seus marqueteiros e cardeais acham adequados e testam a aceitação.

Depois de três derrotas no mercado presidencial, o conselheiro Fernando Henrique propôs nova estratégia: mudemos nosso público, saiamos do mercado que atende aos interesses do "povão" e nos concentremos no da classe média, porque neste temos mais chances (ou porque é desse que eu gosto mais?).

Algumas marcas fizeram isso. A maioria, entretanto, optou pela identidade de "marca de prestígio", lançando alguns produtos para consumo do "povão". Assim garantiram presença e lucros, sem perder a identidade. Exemplos: a Nikon, a Armani e, em certa medida, a Louis Vuitton. Mas não a Rolex, que manteve seus produtos na elite, ainda que contemplando diversos níveis dessa elite (produz de relógios de aço a outros de ouro, platina e diamantes).

Aqui cessam as semelhanças entre o mercado de bens e o de leis e políticas públicas. É possível sobreviver no mercado de bens e serviços porque uma empresa pode conseguir lucros suficientes para seus acionistas mantendo uma fatia limitada a consumidores de alta renda. No mercado político isso não é factível, porque política é um jogo de números e só há um ganhador. O perdedor fica fora por quatro anos, noves fora o Congresso, que vale muito menos. Na Presidência, quem tem a maior margem de mercado, além de dominá-lo por quatro anos, ainda ganha algumas vantagens para disputar a reeleição.

Parece ser nesse ponto que a estratégia de Fernando Henrique falha. Partidos só são concorrentes eficazes sob certos aspectos. Quando chega a hora em que quem tem a maior fatia do mercado leva tudo, essa comparação deixa de ter valor. Desse ponto de vista, a proposta de Fernando Henrique parece ser suicida: condenaria o PSDB a se tornar um partido marginal (ou regional), que renunciaria a disputar o grande mercado nacional para se concentrar em alguns nichos (Estados) e parte do Congresso, abdicando de pleitear a Presidência.

É uma estratégia como qualquer outra. Pode funcionar com relógios de luxo ou com as quatro únicas coisas que diferenciam os verdadeiramente ricos do restante, em sociedades de consumo de massa: obras de arte originais, iates transatlânticos, grandes jatos privados e fazendas suficientemente grandes para não ser incomodado pelo barulho dos vizinhos. Todos os outros produtos de consumo foram forçados a aceitar as regas dos mercados de massa para sobreviver e prosperar. Hoje, com dinheiro e crédito, qualquer um destes acaba sendo acessível a consumidores de classe média, que terão de fazer mais ou menos sacrifícios, mas acabarão podendo adquiri-los.

Para partidos políticos, entretanto, essa estratégia é suicida porque os condena a ser marginais e, em última instância, ao desaparecimento - ou quase. Assim, do ponto de vista dos peessedebistas, a estratégia proposta por Fernando Henrique condenaria o seu partido a ter uma fatia pequena e irrelevante do mercado, apostando num crescimento da renda e da sua distribuição que as regras de economia e da demografia dificilmente deixarão que ocorra no espaço de nossa vida.

Agora resta saber o que as equipes da empresa PSDB (seus políticos em geral) farão a esse respeito. Se o conselho aceitar a proposta de Fernando Henrique e a adotar, vão testar se a realidade concorda com o ex-presidente. Se não, pode ser obrigada a fechar as portas por falta de mercado ou involuir para se tornar uma "grande empresa de pequenos negócios". A próxima parada pode ser o fechamento ou a falência.

Sei que me arrisco fazendo previsões sobre o futuro (é mais seguro e confortável fazê-las sobre o passado), mas não existe exemplo na História recente (desde o triunfo dos mercados e do capitalismo sobre a aristocracia) em que tal caso tenha ocorrido, salvo se Fernando Henrique pretende escrever outro livro e depois pedir que o esqueçam.

Aqui vale a máxima do Barão de Itararé: melhor dois galos no terreiro do que um na cabeça.

PH.D. EM CIÊNCIA POLÍTICA, É SÓCIO DA EARLY WARNING: RISCO POLÍTICO E POLÍTICAS PÚBLICAS(BRASÍLIA)

E-MAIL: ALEX@EAW.COM.BR

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