O PT perde dinheiro

Os grandes financiadores de campanhas políticas ou não acreditam na reeleição da presidente Dilma Rousseff ou parecem estar fazendo a sua parte - por omissão - para que ela não se reeleja. É o que se pode deduzir da batelada dos números recém-divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com a primeira prestação de contas encaminhadas pelos diretórios nacionais dos partidos, referente aos 30 dias iniciais da temporada eleitoral oficial completados na quarta-feira.

O Estado de S.Paulo

10 Agosto 2014 | 02h05

Há quatro anos, nesse mesmo período, quando o grosso do eleitorado mal tinha ouvido falar em Dilma, havendo até quem confundisse o seu sobrenome com o "do chefe", a influência e a popularidade do ainda presidente Luiz Inácio Lula da Silva carrearam para os cofres petistas R$ 6,9 milhões em doações, praticamente todas de pessoas jurídicas. Agora, quando a candidata, embora estável na liderança das pesquisas, encabeça também a lista daqueles em quem os entrevistados não pretendem votar "de jeito nenhum", as contribuições se limitaram a R$ 6,2 milhões.

Com isso, a legenda caiu para a oitava posição no ranking dos valores arrecadados pelas 20 agremiações que os informaram ao TSE. As outras 12 declararam nada ter recebido. Aos 34 anos de existência e há 12 no poder, o diminuído PT se vê na constrangedora situação de ficar atrás nesse quesito do novato partido Solidariedade (SDD) do sindicalista Paulo Pereira da Silva, que rompeu com o Planalto para apoiar o tucano Aécio Neves. O SDD já amealhou R$ 7 milhões.

Outro fato significativo é a aparente cautela - hedge, dir-se-ia nos mercados financeiros - demonstrada até aqui pelos principais contribuidores em comparação com a largada para a eleição presidencial em que Lula se consagrou ao fincar o seu "poste" Dilma. À época, por exemplo, o mais mão-aberta deles, o Grupo JBS, doou à estreante R$ 9 milhões, três vezes o montante repassado ao seu adversário tucano José Serra. Desta vez, a maior processadora de alimentos do mundo distribuiu igualmente R$ 10 milhões entre Dilma e Aécio. A informação é da Folha de S.Paulo.

Parceiro do PT no plano nacional, compondo pela segunda vez a chapa governista com o vice Michel Temer, mas seu adversário em São Paulo e no Rio de Janeiro, por exemplo, o PMDB juntou nesse começo de contenda R$ 28,5 milhões (4,6 vezes o resultado petista), o que o levou ao pódio da corrida ao ouro nessa fase. É quase o triplo dos R$ 10,9 milhões obtidos na primeira sortida de 2010. Empresas dos setores de construção e energia assinaram os cheques mais polpudos. Isso se explica não pelas expectativas de retribuição em um eventual segundo mandato da dupla Dilma-Temer, mas em função dos Estados.

Este ano, a cúpula do PMDB concentrou na contabilidade do diretório nacional as doações a seus candidatos a governador - que, por sinal, somam 18, ante os 11 da disputa anterior. Para ter ideia do cotejo de cifrões entre os aliados federais, a soma dos recursos destinados aos 17 candidatos estaduais petistas (pouco mais de R$ 22 milhões) equivale apenas à primeira colheita de um único candidato peemedebista, Luiz Fernando Pezão, o vice de Sérgio Cabral a quem substitui atualmente.

Se a bonança se mantiver e se o dinheiro falar mais alto do que tudo o mais, não será fácil alijá-lo do Palácio Guanabara, embora ele apareça apenas em terceiro lugar na mais recente pesquisa do Datafolha no Estado, atrás de Anthony Garotinho e de Marcelo Crivella, praticamente empatados (assim como Pezão e o petista Lindbergh Farias). O aparente paradoxo se repete no Rio Grande do Sul, onde o governador Tarso Genro, do PT, lidera amplamente na arrecadação (R$ 516 mil, ante os R$ 108 mil da senadora Ana Amélia, do PT), mas ambos aparecem tecnicamente empatados na pesquisa do Ibope dessa semana.

A próxima rodada de prestação de contas, a ser divulgada pela Justiça Eleitoral a partir de 6 de setembro, permitirá saber se algo terá mudado na atitude dos costumeiros patrocinadores de campanhas presidenciais em função do fato novo que será o período de propaganda na mídia eletrônica. É também quando os eleitores começam a definir quem será o beneficiário de seu único recurso - o voto.

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