O que a infecção pelo vírus HIV ensinou

Muito. Em medicina, biologia básica, antropologia ou sociologia e em psicologia. O mundo depois da aids sabe mais sobre várias coisas.

Vicente Amato Neto e Jacyr Pasternak*, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2015 | 03h00

Grande parte do progresso na imunologia veio quando fomos obrigados a lidar com os vírus da imunodeficiência humana (HIV); infecções que eram conhecidas apenas como absolutas raridades ficaram mais frequentes, tornaram-se mais bem avaliadas e tratadas. As dimensões da variedade sexual humana nas nossas sociedades se revelaram. Um cientista social disse que a infecção pelo HIV funcionou como revelador fotográfico – ainda existe isso ou é tudo digital? – mostrando aspectos sociais e comportamentais que antes estavam ignorados. Desconhecidos, não, pois sabia-se que existiam, mas não eram discutidos ou considerados em políticas públicas. A aids obrigou que o fossem.

O maior avanço, na nossa opinião, refere-se aos conhecimentos em imunidade celular, algo complexo e cujos detalhes foram bem esmiuçados com o estímulo da doença desencadeada pelo HIV. Até hoje aparecem novidades nesse setor. A última parece coisa de ficção científica e foi recentemente publicada no New England Journal of Medicine. Um cidadão contaminado por HIV desenvolveu um tumor maligno. Até aí, nada novo, é conhecida a propensão dos infectados a cânceres – mais a linfomas e a sarcoma de Kaposi, mas também a outros. Esse senhor tinha nódulos malignos no pulmão e gânglios cervicais. Os gânglios e o pulmão foram biopsiados e evidenciaram um tumor estranho, de células muito pequenas e que se fundiam ocasionalmente. Após uma investigação completa, incluindo análise do DNA do tumor, definiu-se que ele não era de origem humana, e sim de um parasita, Hymenolepis nana. Esse verme em geral não causa sintomas no ser humano, que não é seu hospedeiro habitual.

A Hymenolepis é tênia de rato. Ao contrário das demais que acometem os humanos, ela não precisa de hospedeiro intermediário para completar seu ciclo, podendo levar à autoinfestação. Quem identificou esse caso único imagina que a falta de resposta imune tenha levado à proliferação do parasita no hospedeiro; e uma dessas tênias teve um câncer que se disseminou no indivíduo, mais uma vez por absoluta falta de resposta imune. É a primeira descrição de câncer de parasita se desenvolvendo em hospedeiro humano. A gente pergunta se não ocorreram outros casos desconhecidos.

Seria longa a enumeração dos meandros imunológicos descobertos como subproduto da investigação da fisiopatologia da aids. Também se aprendeu bastante no âmbito das ciências humanas. A aids levou a espécie humana a mostrar o que tem de melhor, como solidariedade e cuidado no tratamento de seus doentes; e o que tem de pior: a discriminação, o pânico mal motivado, a vigarice. Ainda há, pasmem, malandros que acreditam na cura via medidas espirituais, de diferentes origens. A aids levou governos a políticas esclarecidas e o Brasil, por exceção à sua História, foi um dos mais lúcidos em ações públicas referentes a essa doença. Salientamos que garantiu a testagem e o tratamento a todos os atingidos.

Vale recordar os maquiavelismos na África do Sul durante o mandato de Thabo Mbeki, quando sua ministra da Saúde sugeria tratar a infecção com beterraba e vários mandantes do país contestavam o fato, biologicamente incontestável, de o HIV ser a causa da aids. Os resultados estão aí: no Brasil a população contaminada não ultrapassa 0,2% e na África do Sul, na vigência da direção desse ilustre prócer, foi a 15%.

Para uma geração de médicos a aids motivou impacto notável. Quando a epidemia começou, morriam pacientes jovens, alguns da idade dos residentes de Medicina, e de maneira rápida, apesar de tudo o que tentávamos fazer por eles. Médicos não estão acostumados, ao menos não estavam, a ver morrer de infecção pessoas jovens – crianças muito pequenas e velhos muito velhos, sim, mas não dessa idade. Muitos se identificaram com os pacientes, sofreram depressão e precisaram de tratamento psicológico. Outros evitaram especialidades que tivessem relação com o HIV, como se isso fosse possível. Contaminados procuram consultórios de todas as profissões. Alguns, ainda, como atividade antifóbica se dedicaram ao tratamento da aids, confrontando seus temores. Toda uma geração de médicos sofreu com isso, até que tratamentos mais eficientes apareceram e nossos pacientes deixaram de morrer aos 30 anos. Hoje eles morrem de enfarte ou de doenças vasculares, como decorrência da enfermidade em si e dos meios terapêuticos, aos 50, 60 anos.

Podemos dizer que o mundo pode ser visto como antes da aids – quando os maiores riscos de doenças sexualmente transmissíveis eram sífilis, gonorreia, hepatites, herpes e outras que têm remédio ou vacina – e depois da aids. Há um período na História particularmente feliz, depois da pílula anticoncepcional e antes da aids. Vivemos esse tempo e não sabíamos como era bom, até que ele acabou, em 1979...

Foi uma época tão boa que uma nova geração entrando na vida sexual tenta reproduzi-la. Como nunca viu um legítimo quadro de aids, pois com o acesso aos medicamentos gratuitos e fácil eles estão muito raros, esta geração considera a infecção pelo HIV algo resolvido e passa a transar por aí sem se precaver ou a compartilhar agulhas e seringas adoidado. Existem até alguns doidos que tentam se contaminar voluntariamente – o que chega realmente às raias da falta total de juízo.

Tratamos a infecção, sim, mas tomar remédios o resto da vida é, no mínimo, inconveniente, sem falar das complicações vasculares no longo prazo e outros riscos. Essas mesmas criaturas que se expõem e se contaminam vão tomar as medicações com a regularidade necessária para controlar devidamente a infecção pelo HIV? Vão fazer o acompanhamento médico, tão necessário quanto o uso adequado da medicação? A capacidade da espécie humana de fazer bobagens parece infinita...

*VICENTE AMATO NETO E JACYR PASTERNAK SÃO MÉDICOS E PROFESSORES UNIVERSITÁRIOS, COM ESPECIALIZAÇÃO EM CLÍNICA DE DOENÇAS INFECCIOSAS E PARASITÁRIAS

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