O que o sábado mostrou

Foi como se junho de 2013 não tivesse existido, os black blocs fossem um bloco carnavalesco e o Brasil, um gigante adormecido. O que se passou sábado em São Paulo, na esteira de uma manifestação contra a realização da Copa, que reuniu algo como 1.500 pessoas, deu em quebra-quebra e acabou com um ativista baleado, é uma demonstração desoladora do despreparo da Polícia Militar (PM). A Força se revelou novamente incapaz de prevenir e reprimir o vandalismo sem transformar os agressores em vítimas, estimulando novas violências neste país pontuado por focos de incêndios sociais. Em regra, o que ocorre hoje em São Paulo tende a ocorrer amanhã em outras grandes cidades.

O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2014 | 02h07

A PM paulista está longe de ser uma exceção. Das suas congêneres também se pode dizer que não aprenderam a preservar a paz pública com um mínimo de inteligência e doses de energia calibradas a cada caso. Nem se esqueceram de sua entranhada tradição de truculência, o que, aliás, é indispensável para se entender as suas limitações profissionais. Mesmo assim, é inconcebível que a mais bem adestrada e equipada das Polícias Militares brasileiras, como consta que seja, ainda se deixe apanhar como que de surpresa pela ação dos grupos fascistoides que se imaginam a verdadeira esquerda, misturados aos que se comprazem patologicamente com a destruição pela destruição.

Transcorridos sete meses de protestos seguidos ou, em diversos locais, acompanhados de depredação de patrimônio público e privado, é de perguntar, com sentimento de perplexidade, o que foi que a PM, de cujo organograma faz parte um serviço de informações, conseguiu saber sobre os black blocs, infiltrando-se entre eles ou recorrendo a outras modalidades de coleta de dados. Sem isso, não há como antecipar os seus atos e neutralizar os seus prováveis perpetradores. Nas ruas os agentes os fotografam com câmeras de alta definição; nas delegacias, eles são identificados e fichados antes de serem postos em liberdade. E daí? De que isso servirá na próxima ocasião?

A sequência dos acontecimentos do sábado foi uma réplica do padrão de junho. Pessoas se reúnem e saem em passeata para propagar as palavras de ordem da vez. Quando, enfim, começam a se dispersar, os encapuzados entram em ação. Mas houve uma agravante: antes até da manifestação, os black blocs deram uma insolente exibição de força, formando uma falange diante da barreira de soldados. Quando, tendo saído da avenida Paulista e descido a Brigadeiro Luís Antonio, o protesto chegou ao centro velho, os blocs repetiram o que fazem com gosto e naturalidade: incendiar ou quebrar agências bancárias, lojas e veículos. Tudo conforme o conhecido manual que a PM tinha a obrigação de impedir que fosse posto em prática.

A tropa pelo menos fez uma coisa certa - e importante. Impediu que o bando chegasse à Praça da República, onde se realizava um concorrido show pelo 460.º aniversário da cidade. Depois, deteve cerca de 130 blocs, confinou-os em um hotel de onde foram levados a uma delegacia. Tudo parecia ter acabado quando sobreveio o pior. No bairro de Higienópolis, um desgarrado manifestante de 22 anos, em cuja mochila os PMs encontraram explosivos, tentou fugir. Acossado, ele os teria ameaçado com um estilete. Foi baleado no tórax e na virilha - como se não houvesse outra forma de contê-lo. Os próprios policiais, contrariando recomendação da Secretaria da Segurança, levaram-no a um hospital.

O jovem, Fabrício Proteus Nunes Fonseca Mendonça Chaves, passou por quatro cirurgias e o seu estado continuava grave ontem. É, desde já, o mártir que faltava aos radicais - para conquistar a solidariedade, quando não a adesão, dos que guardam distância de seus métodos. Diante do desempenho da PM, se o governo do Estado não tomar o pião na unha - o que não parece disposto a fazer -, pode a presidente Dilma Rousseff reunir quantas vezes queira o gabinete de crise que montou no Planalto para impedir que a violência se aproprie das ruas a pretexto da Copa. O Brasil é uma Federação, e recorrer ao Exército é impensável.

Temos todos, e não apenas os paulistas, fortes motivos de inquietação com o que pode vir por aí e com o que se conta para que não venha.

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