O que pode vir depois do acordo

A rápida aprovação pelo Senado, por tranquila maioria de 74 votos a 26, e a imediata sanção pelo presidente Barack Obama do projeto que permite a elevação da dívida americana de US$ 14,3 trilhões e impõe cortes nos gastos do governo nos próximos anos sepultam o fantasma do calote do Tesouro dos Estados Unidos, dão algum fôlego político ao atual ocupante da Casa Branca - pois adiam discussões cruciais sobre gastos públicos para 2013, depois da próxima eleição presidencial - e proporcionam algum alívio no mercado financeiro. Mas deixam dúvidas e incertezas que podem realimentar novas turbulências na economia mundial, com impacto relevante sobre os países em desenvolvimento.

, O Estado de S.Paulo

03 Agosto 2011 | 00h00

Apesar de o projeto ter resultado de um acordo entre os Partidos Republicano e Democrata, sua arrastada negociação entre o governo e a oposição, que empurrou a votação para a data-limite fixada em lei - se o projeto não fosse aprovado até ontem, a partir de hoje o Tesouro teria de selecionar os pagamentos que poderia fazer, o que implicaria deixar de honrar outros compromissos -, prejudicou a imagem dos congressistas e do presidente Obama e não deixou nenhuma das partes inteiramente satisfeita.

Na verdade, a votação na Câmara dos Representantes, que aprovou o projeto na noite de segunda-feira, revelou uma clara divisão na base de apoio de Obama, pois 95 deputados democratas votaram a favor e 95, contra. Foi a bancada republicana, com 174 votos a favor e 66 contra, que assegurou a aprovação do acordo.

Mesmo assim, os dois lados tentam obter dividendos políticos desse episódio desgastante para os EUA e para o mundo. Para o senador republicano Lamar Alexander, a votação marcou uma mudança de comportamento na discussão da política fiscal americana, antes marcada por "gastos, gastos, gastos" e agora baseada em "cortes, cortes, cortes". É o tipo de discurso que faz o gosto dos membros do Tea Party, a ala radical do Partido Republicano - que moveu uma intransigente e irresponsável cruzada contra o governo Obama, sem levar em conta as consequências para o papel dos EUA como locomotiva da economia mundial.

Mas o que cortar? Isso não foi definido com clareza, o que deu espaço para o presidente Barack Obama também tentar capitalizar-se politicamente com o acordo. "Não podemos buscar o equilíbrio orçamentário impondo os custos sobre os ombros das pessoas que já foram castigadas pela recessão", disse Obama logo depois da aprovação do acordo no Senado. Um plano equilibrado para a redução do déficit no longo prazo deve incluir uma reforma tributária para que os ricos "paguem sua cota justa de impostos", acrescentou.

As duas declarações resumem a divisão entre republicanos, que querem cortes de gastos, e o governo democrata, que quer a reposição de impostos cortados por Bush. Essa questão não foi resolvida.

Toda a discussão se deu sobre um cenário econômico nada animador. O PIB americano cresceu apenas 0,4% no primeiro trimestre e 1,3% no segundo. O desemprego continua alto, em 9,2%. A expansão da indústria perdeu vigor em julho.

Desde a crise global iniciada em 2008, recursos públicos têm sido injetados na economia americana para evitar a redução mais intensa da atividade econômica. O ajuste fiscal americano, seja por meio de cortes de gastos ou de aumento de impostos (ou de ambos), fará o papel contrário, ou seja, tenderá a reduzir a atividade econômica. Pode ser pouca coisa. Mas, para uma economia que quase não cresce, qualquer redução pode levar à estagnação.

Desse modo, maior importância terá a atuação do Federal Reserve, o banco central americano, para evitar a desaceleração mais acelerada da atividade econômica, pois entre seus objetivos está o de preservar o emprego. Isso resultará na manutenção de juros em níveis muitos baixos, com impacto negativo sobre a cotação do dólar. Ou seja, os dólares continuarão fluindo com intensidade para outros países, como o Brasil, que já enfrenta dificuldades com o excesso de entrada da moeda americana.

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