O que se espera de Dilma em 2012

Na vida, sempre que a gente dá uma cabeçada, deve-se aproveitar a experiência para não repetir o erro. A presidente da República, cuja falibilidade no gesto de escolher já se tornou notória, além de preocupante, pretende realizar reforma em seu Ministério no início de 2012, quando completará um ano no exercício do cargo.

Aloísio de Toledo César, desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP). E-mail: aloisio.parana@gmail.com, O Estado de S.Paulo

28 Dezembro 2011 | 03h07

É de esperar que ela inicie o ano contaminada pela maravilhosa sabedoria de reconhecer que falhou em algumas ocasiões e novamente poderá falhar. Daí a necessidade de extremo cuidado na seleção e nomeação de pessoas que a ajudarão a governar.

Viu-se que boa parte da turminha que a acompanhou e a envolveu no primeiro ano de governo estava voltada para interesses pessoais e políticos, distanciando-se do princípio republicano de que os bens públicos não pertencem a quem é escolhido para administrá-los. O administrador eleito que confunde os bens públicos com os seus acaba por confundir também os dinheiros e fazer aquilo a que a Nação toda assistiu, pasmada, ou seja, atos administrativos suspeitos de enorme desonestidade, além de ganância pessoal desmedida.

Desde a primeira semana verificou-se que o homem forte de seu governo, Antônio Palocci, se comprometeu - e também a presidente - com a afirmação tola, pueril, infantil de que não poderia indicar a origem de sua fortuna porque os contratos que assinara com os pagadores envolviam cláusula de sigilo. Enfim, ficou a ideia de que o homem que chefiaria a Casa Civil não era capaz de explicar a forma como tanto enriquecera. Dá para imaginar o que ele poderia fazer caso obtivesse e ficasse com a chave do cofre?

Naquela oportunidade, os órgãos de imprensa deixaram evidente que Palocci aumentara 20 vezes o seu patrimônio em quatro anos e sua empresa de consultoria faturara em torno de R$ 20 milhões no ano eleitoral de 2010, fatos que ele não conseguiu explicar. Mas o pior veio no momento de sua saída: a Comissão de Ética Pública da Presidência da República pretendeu abrir duas investigações contra o ex-ministro, mas não houve tempo, porque ele escapuliu, deixando antes o governo. Lamentavelmente, o procurador-geral da República, em ato imperial, verticalmente imposto ao País, resolveu não requisitar inquérito contra o ex-ministro, significando que ficará impune.

É claro que o procurador-geral da República, por respeito à Nação e à verdade, deveria ter submetido ao Supremo Tribunal Federal a decisão, que não honra o Ministério Público. Isso resultou praticamente na aceitação como regular daquela conduta, que causa arrepios.

Nesse episódio vergonhoso para o País, Palocci foi o tempo todo defendido pelo ex-presidente Lula, o que não causa estranheza, porque, conforme versão propagada pela imprensa, a arrecadação de dinheiro para campanha eleitoral (dinheiro sem recibo, é claro) criou forte vínculo pessoal e afetivo entre ambos.

Depois disso, em efeito dominó, outros ministros foram expelidos, sempre pela acusação de participação, por ação ou omissão, em atos de corrupção. E essa tendência se cristalizou, dando a entender que vai continuar.

Os atos de corrupção alcançando integrantes do primeiro escalão de Dilma Rousseff tornaram-se públicos não por iniciativa moralizadora da governante, mas por admirável trabalho de jornalismo investigativo. A imprensa brasileira vem prestando preciosos serviços ao País ao denunciar atos de corrupção, doa a quem doer, fortalecendo a nossa democracia.

Nesse quadro, a presidente Dilma externou frágil conduta, porque somente agiu por reação. Ou seja, diante das denúncias incessantes de jornais, rádios e televisões, endureceu ternamente com os envolvidos, que acabaram deixando o Ministério.

Ficou a impressão de que a referida turminha braba teria continuado no governo caso não tivessem ocorrido as denúncias feitas pela imprensa. Os escândalos sucessivos repercutiram intensamente, inclusive no exterior, de tal forma que até mesmo o jornal britânico Financial Times os enfocou, estranhando que os casos de corrupção não tenham afetado a popularidade da presidente.

Espera-se que Dilma, em 2012, quando a nova equipe poderá ter a sua cara, e não a do antecessor, seja capaz de tomar a iniciativa de faxinas, e não que fique, como sempre, a reboque das denúncias feitas pela imprensa, como tem ocorrido.

Deseja-se que isso lhe seja possível, porque é do interesse do País, mas, lamentavelmente, não se pode perder de vista que o sistema de clientelismo partidário consolidado nos governos Lula, por ela herdado, acabou mantido em 2011 e sobrevive conforme a linda oração de São Francisco de Assis, ou seja, "é dando que se recebe".

Realmente, prisioneira de uma coalizão política e partidária que dá prioridade a interesses eleitorais e pessoais, Dilma tem sido compelida a ceder fatias de governo e a engolir os indicados, os quais, para obterem a indicação, ficam, por sua vez, comprometidos com condutas que se converteram em escândalos públicos. Resta a impressão de que Dilma está com o comportamento engessado por esse sistema político-partidário de feição quase mercantil, que foi implantado por seu antecessor; e se espera que tenha a competência e a coragem necessárias para romper o círculo vicioso.

Acreditar no apoio obtido por meio de barganha na base do "é dando que se recebe" representa, talvez, um erro político e de avaliação, porque aliados que externam apoio em função de interesses pessoais são confiáveis apenas durante o tempo em que desfrutam as vantagens.

Será preferível que a presidente logre escolher pessoas pelo caráter, pela competência e que estejam comprometidas com princípios desejáveis em alguém que vai cuidar de bens e dinheiros públicos, pois isso é o que o País e os brasileiros merecem.

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