O que se espera de Haddad

Fernando Haddad assume a Prefeitura de São Paulo com a responsabilidade de recuperar a confiança do cidadão paulistano na administração da maior metrópole brasileira. Gilberto Kassab chega ao fim de seu segundo mandato com um índice de rejeição que só não é maior do que o da catastrófica gestão de Celso Pitta (1997-2001). Resta esperar agora que o novo prefeito tenha reunido uma equipe capaz de trabalhar com a eficiência que seu partido está longe de demonstrar no plano federal e corresponda às expectativas positivas e ao crédito de confiança devidos a um novo governo. Este é o desejo de todos os que vivem nesta gigantesca cidade.

O Estado de S.Paulo

01 Janeiro 2013 | 02h05

Ao prestar contas de sua gestão no dia 26, mostrando os resultados finais de seu programa oficial de metas anunciado em 2009, Kassab foi generoso consigo exibindo dados que, segundo ele, atribuem a seu governo um "índice de eficácia" de 81%. Aceitar como verdadeira essa versão significa admitir que o prefeito retirante falhou gravemente "apenas" em convencer a população paulistana a acreditar na sua eficácia. Só isso já seria imperdoável para qualquer político, ainda mais para quem tem alentada ambição de progredir no ofício de governar. Mas o saldo negativo de 14% na avaliação de seu mandato, segundo o Ibope (42% de avaliação ruim/péssimo contra 27% de bom/ótimo), certamente é efeito dos desacertos da gestão municipal à qual dedicou, afinal, apenas quatro anos a partir da saída de Serra.

Efetivamente, o fato é que, nos últimos dois anos, Kassab dedicou-se com afinco à formação de seu novo partido, o PSD, hoje a terceira maior bancada na Câmara dos Deputados - aquele que "não é de esquerda, nem de centro, nem de direita". Para tanto, percorreu uma trajetória politicamente sinuosa e nem sempre coerente, marcada por iniciativas difíceis de serem assimiladas pelo senso comum, como o insistente assédio ao lulopetismo por parte de um político que surgiu na vida pública como militante do DEM, historicamente o mais encarniçado adversário do PT. Não surpreende, portanto, que Kassab tenha suscitado, nos cidadãos que procuram levar a política a sério, a desconfiança de que é apenas um "político", na mais depreciativa acepção do termo, e seu PSD, um mero instrumento para alavancar trajetórias pessoais.

Para a cidade de São Paulo, portanto, o que importa a partir de agora é que os gravíssimos problemas nas áreas da saúde, educação, transporte e segurança - para citar os mais prementes - sejam atacados com eficiência por um poder municipal movido por genuíno espírito público. Fernando Haddad, jovem, bem preparado e experiente na administração pública, parece reunir condições para comandar o grande esforço necessário para a transformação desta que é uma das maiores metrópoles do mundo numa cidade em que a promoção da qualidade de vida de todos os cidadãos, vale dizer, a promoção da condição humana, seja a suprema, inescapável e definitiva meta do seu governo.

Para tanto, será necessária a aplicação de um adequado plano de governo. E que todos os agentes da administração municipal atuem como genuínos servidores públicos. E é por aí que o governo petista de Haddad poderá se complicar. A exemplo do que se torna cada vez mais evidente no plano federal, o PT está menos preocupado com planos de governo do que com seu plano de perpetuação no poder. Longe de ser uma frase de efeito, essa é uma preocupante realidade admitida até por simpatizantes históricos e colaboradores dedicados das administrações petistas, como Frei Beto, que a definiu com todas as letras em entrevista ao Estado.

E quando se trata de projeto de poder, Lula & Cia. sempre deixaram muito clara a absoluta prioridade da conquista da Prefeitura paulistana como cabeça de ponte para a tomada, a seguir, do Palácio dos Bandeirantes. Entende o lulopetismo que desalojar os tucanos do governo do mais importante Estado da Federação é essencial para sua perpetuação no comando político do País. Resta saber, portanto, até que ponto Fernando Haddad terá forças - e desejo - para evitar que a Prefeitura de São Paulo se transforme prioritariamente em ferramenta eleitoral do PT. Pois há uma enorme diferença, frequentemente inconciliável, entre programa de governo e estratégia eleitoral.

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