O que se pode esperar agora

Uma campanha eleitoral serve para oferecer aos eleitores uma visão tão clara, ampla e profunda quanto possível daquilo que se propõem a fazer, uma vez eleitos, aqueles que disputam seu voto. No que estão implícitas, especialmente no caso de candidatos oposicionistas, as críticas e correspondentes alternativas às políticas em vigor e das quais discordam.

O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2014 | 02h06

É também a oportunidade que os candidatos têm de apresentar as credenciais que os habilitam a cumprir o que prometem. São assim as campanhas civilizadas, que honram e elevam o debate político e resultam no aprimoramento do sistema democrático e da gestão da coisa pública. Infelizmente, não é o que se tem visto no Brasil, de modo muito especial desde que o PT passou a disputar eleições.

Diante do retrospecto da campanha do primeiro turno desta eleição presidencial, para ficar nos exemplos mais recentes, é difícil de imaginar que a propaganda eleitoral que recomeça hoje fuja do padrão "fazer o diabo" preconizado por Dilma Rousseff e fielmente cumprido pelo portentoso aparato montado pelo PT para manipular números, inventar mentiras e alimentar ilusões.

Por essa razão, são até animadoras, mesmo analisadas com a devida cautela, as declarações de dois importantes líderes petistas estampadas nos jornais desta semana, nas quais afirmam discordar da radicalização da campanha eleitoral como Dilma Rousseff fez no primeiro turno.

Os petistas Fernando Pimentel, governador eleito no primeiro turno em Minas Gerais, e Jaques Wagner, governador que chega ao fim de seu segundo mandato na Bahia garantindo, também em primeiro turno, a eleição de seu sucessor, em entrevistas separadas ao jornal Valor, consideraram "um erro" eventual tentativa de repetir, contra Aécio Neves, a tática do terror empregada contra Marina Silva.

Com o prestígio acumulado junto à cúpula do PT com as importantes vitórias que obtiveram em seus Estados, Pimentel e Wagner entendem que a campanha de Dilma Rousseff neste segundo turno precisa ser propositiva, baseada na comparação dos governos petistas com os dos tucanos.

Deve-se, contudo, dar um desconto para os bons modos dos dois próceres petistas, que se manifestaram de alma leve, no embalo da euforia pelas significativas vitórias eleitorais que conquistaram. Não é essa a disposição geral entre os lulopetistas. No calor da disputa do segundo turno, principalmente se as primeiras pesquisas de intenção de voto não lhes trouxerem boas notícias, os petistas de truz não hesitarão em apelar para o que sabem fazer de melhor: reduzir o discurso ao nível mais baixo possível e partir para o ataque aos "inimigos do povo" com muita maldade e nenhum escrúpulo.

A verdade é que de quem assim age pouco se pode esperar qualquer contribuição importante para o aprimoramento da democracia, única via segura para a conquista do progresso com a eliminação das injustiças sociais, porque o argumento central do discurso imposto ao partido pelo pragmatismo populista de Lula é falso como uma nota de três reais: o que está em jogo, permanentemente, é a luta de "nós", o povo humilde e sofrido, contra "eles", a elite perversa.

Esse substrato da retórica petista, facilmente identificável, nem sempre está claramente exposto nos discursos oficiais ou na propaganda eleitoral, mas é abertamente usado pela militância petista, que não hesita em atemorizar o eleitorado dependente de programas sociais como o Bolsa Família com a falácia de que os adversários do PT, se eleitos, acabarão com esses programas.

Até mesmo Fernando Pimentel, que se diz contra campanhas eleitorais de baixo nível, pratica o discurso lulista do bem contra o mal. Em sua entrevista ao Valor, garantiu que o PT, generoso, defende "um modelo comprometido com o bem-estar da população", enquanto a oposição, insensível, "tem a preocupação clara com a livre circulação do capital financeiro, com o processo mais de acumulação do lucro das empresas do que da distribuição de renda". Vem muito mais por aí.

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