O que se pode esperar do segundo mandato

Neste momento em que a presidente Dilma Rousseff chega ao final de seu primeiro mandato, é interessante volver os olhos para trás e tentar compreender o que deu errado para ela (e, infelizmente, para nós).

Aloísio de Toledo César, O Estado de S.Paulo

27 Dezembro 2014 | 02h03

Sem nenhuma dúvida, ela foi vitoriosa no trabalho de captar os votos de metade dos brasileiros nas eleições deste ano, e com esse propósito não teve o menor escrúpulo de mentir e enganar, circunstância que expôs um caráter que é capaz de tudo para se manter no poder.

Não houve grandeza alguma nessa conduta, mas ela venceu e se encontra diante de uma realidade nova: está obrigada a formar um outro governo e, quem sabe, errar menos do que no primeiro mandato. Esse é o ponto crucial, porque, não tendo ela demonstrado pessoalmente brilho ou talento, não poderia isso exigir das pessoas por ela colocadas em cargos do primeiro escalão.

Sem nenhuma dúvida, o erro principal da presidente Dilma foi nomear para os ministérios e postos de importância de seu governo pessoas despreparadas, mas indicadas pelos aliados políticos. Sim, no propósito de constituir um governo de coalizão, ela docilmente passou a aceitar e a nomear pessoas que não detinham a necessária habilitação para os cargos, mas que eram protegidas dos seus aliados.

A consequência dessas indicações foi desastrosa e conduziu o País cada vez mais para o plano inclinado. A incapacidade administrativa dos protegidos políticos foi tanta que dificilmente no País se encontrará alguém capaz de repetir os nomes de seus 39 ministros.

Enfim, a falta de talento e de brilho que sempre caracterizou a presidente Dilma se fez sentir de forma igualmente expressiva entre seus ministros, a ponto de nenhum deles, passados quatro anos, haver alcançado o menor destaque pessoal. Não há entre eles um único que se projetasse nacionalmente, a não ser por lamentáveis episódios de má conduta e corrupção.

Mas, se houve erro na indicação política desses ministros, pior foi a nomeação para a presidência da Petrobrás de uma companheira de cadeia dos tempos da ditadura. Sim, certamente motivada por esses compreensíveis laços de solidariedade, Dilma colocou na Petrobrás uma senhora que nada entendia daquilo e que colaborou, por ineficiência e omissão, para o desmanche progressivo desta enorme e expressiva empresa do Brasil.

Para esse erro lamentável emerge também uma outra explicação: a de que Dilma precisava ter naquele posto alguém de extrema confiança, que soubesse não só obedecer ao Planalto, mas também camuflar e manter sob sete chaves determinados fatos que atingiriam a própria presidente da República.

Todos os dias os brasileiros percebem com absoluta clareza a falta de aptidão de Graça Foster para o exercício do cargo de presidente da Petrobrás. Se ainda estivesse vivo, o ex-governador Adhemar de Barros resumiria claramente a questão: "Ela não é do ramo".

Sucede que a presidente Dilma Rousseff não pode indicar "alguém do ramo" para o cargo, porque essa pessoa, se for independente e agir profissionalmente, poderá acabar abrindo a barriga da Petrobrás e mostrando ao País toda a sujeira lá existente e da qual, certamente, até o momento só conhecemos uma parte.

Não parece admissível que a chefe da Nação e sua aliada Graça Foster não percebessem ou não soubessem que a maior empresa brasileira estava sendo usada de maneira tão torpe para enriquecer aliados políticos da pior espécie, ou seja, todos ligadíssimos ao ex-presidente Lula e à própria Dilma.

É forçoso reconhecer que os aliados do Partido dos Trabalhadores, apesar de serem claramente comprados, foram leais, cumpriram a sua parte e ajudaram na reeleição, ainda que para isso tenha sido usado o nosso dinheiro, na forma de corrupção ativa, passiva e lavagem de dinheiro. Nunca o País conheceu escândalo tão alarmante como este avanço insaciável e condenável à riqueza da Petrobrás.

Agora, quando está para ser composto o novo governo da presidente Dilma, em seu segundo mandato, será que poderemos ter a esperança de uma nova conduta, ou seja, será que ela terá a coragem de indicar para os cargos de alto escalão pessoas realmente preparadas para as atividades que deverão exercer?

Viu-se que ela escolheu para o Ministério da Fazenda um profissional da área, e isso causou boa impressão. Mas, pelo que se observa, o Congresso Nacional não aprova nenhuma lei de interesse do Planalto a não ser mediante barganha, ou seja, cargos e vantagens em troca do voto.

O pior é que tanto a Câmara dos Deputados como o Senado serão em parte renovados, sem que se possa avaliar por antecipação qual será o apetite destes novos eleitos. Haverá, sim, necessidade de novas composições político-partidárias, destinadas a constituir a maioria obediente ao Planalto, e isso repercute contra nós, brasileiros, porque talvez afaste o sonho de que os ministérios passem a ser ocupados por pessoas realmente preparadas.

Em verdade, a chefe da Nação está encurralada, porque anunciou o propósito de um "pacto contra a corrupção", mas, se levar isso adiante, talvez tenha de sair correndo atrás de muitos aliados, que hoje figuram nas listas de beneficiados pelas roubalheiras na Petrobrás e na Eletrobrás.

Como a ineficiência na condução administrativa do governo é característica da própria presidente Dilma, e isso se espalha como doença incurável para a sua equipe, será otimismo exagerado imaginar que teremos um segundo mandato melhor do que o primeiro.

Uma boa coisa seria ela extinguir pelo menos metade de seus quase 40 ministérios, muitos dos quais foram criados tão somente para saciar a gula dos partidos aliados que concorrem para formar a maioria do governo no Congresso Nacional. É um preço muito alto que nós, brasileiros, pagamos.

*Aloísio de Toledo César é desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail: aloisio.parana@gmail.com 

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