O ranking das universidades

Se não detiver em tempo a perda de visibilidade de suas universidades no exterior, o Brasil poderá entrar num círculo vicioso que comprometeria a formação de capital humano de que tanto precisa para voltar a crescer

O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2018 | 03h00

As universidades brasileiras continuam perdendo posições nos estudos comparativos das melhores instituições de ensino superior promovidos pela Times Higher Education, entidade britânica especializada na avaliação do setor. O último estudo, que acaba de ser divulgado, avaliou 1.250 instituições de 86 países e incluiu apenas 15 universidades brasileiras entre as mil melhores. No levantamento do ano passado, eram 21 universidades e, em 2016, 27.

Dentre as que saíram do ranking das mil melhores estão a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e as Universidades Federais do Ceará, do Rio Grande do Norte, de Pernambuco e de Itajubá. As universidades estaduais e federais de São Paulo permaneceram na lista e a instituição brasileira mais bem classificada, a USP, conseguiu ficar no grupo que está entre 251 e 300 melhores. Apesar da ligeira melhora que obteve em 2017 em itens como ambiente de ensino, número de citações e perspectiva internacional, essa foi a posição da USP no levantamento de 2016.

Também como em 2016, a Unicamp foi a segunda instituição brasileira mais bem classificada em 2017, ficando na faixa das 401 a 500 universidades com melhor desempenho. Ela foi seguida pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). As três melhores posições no levantamento da Times Higher Education foram ocupadas pelas universidades de Oxford e Cambridge, do Reino Unido, e Stanford, dos Estados Unidos.

A redução do número de universidades brasileiras no ranking das mil melhores foi classificada pelo diretor da entidade, Phil Baty, como um “alerta sombrio”. Entre os fatores responsáveis por essa queda, três merecem destaque. O primeiro foi a expansão, sem qualquer planejamento e determinada basicamente por motivos eleiçoeiros, da rede de universidades federais nos governos Lula e Dilma Rousseff. O aumento das despesas de custeio e investimento daí decorrente afetou o Orçamento da União para o ensino superior, que não cresceu na mesma proporção dessas despesas. O segundo fator foi o fraco desempenho das universidades federais na área de pesquisa científica e tecnológica - um problema também decorrente da escassez de recursos. O terceiro fator decorre de um conflito de prioridades por parte das autoridades educacionais. Por concentrarem a atenção na ampliação do acesso à educação superior, elas ficam sem recursos humanos e financeiros suficientes para assegurar padrão de excelência no ensino. Não conseguem, assim, assegurar qualidade acadêmica e produtividade científica.

A recessão diminuiu a receita tributária da União e obrigou as autoridades orçamentárias a promover sucessivos cortes nos repasses para essas instituições e para as agências de fomento à pesquisa e qualificação docente, como o CNPq e a Capes, cujo volume de financiamento hoje é metade do que foi há quatro anos. Isso comprometeu não só as linhas de pesquisa das universidades públicas, mas, igualmente, seus projetos de internacionalização, que envolvem estágios de professores brasileiros em universidades de ponta dos países desenvolvidos e a vinda de docentes dessas instituições para o Brasil.

Se não detiver em tempo a perda de visibilidade de suas universidades no exterior, o Brasil poderá entrar num círculo vicioso que comprometeria a formação de capital humano de que tanto precisa para voltar a crescer, advertiu Phil Baty. Quando uma instituição é bem classificada nos levantamentos comparativos de desempenho e qualidade, ela é procurada por melhores estudantes e professores, o que propicia mais financiamento para suas atividades de ensino, pesquisa e intercâmbio científico. Inversamente, quando perde posições, ela perde talentos, tem menos oportunidades de obter financiamentos e firmar parcerias mundiais, o que tende a prejudicar ainda mais sua imagem, multiplicando ainda mais dificuldades. Evitar esse círculo vicioso é um dos desafios do próximo governo.

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