O reatamento Washington-Havana

O reatamento entre Estados Unidos e Cuba, que parecia impensável, foi saudado por todos como um prodígio diplomático, capaz de pôr um ponto final no último ato da guerra fria. Algumas razões justificavam o pessimismo que vigorava anteriormente. Qualquer político ou analista americano há muito considerava o embargo a Cuba um anacronismo sem sentido, mas uma realidade difícil de mudar. O temor ao lobby cubano de Miami impedia qualquer iniciativa ousada. Deve ser dito, aliás, que o levantamento do embargo continua a ser improvável nos próximos anos, já que será bloqueado pela maioria republicana nas duas Casas do Congresso americano por tempo indeterminado.

Luiz Felipe Lampreia, O Estado de S.Paulo

06 Janeiro 2015 | 02h05

Fidel Castro era provavelmente o único líder cubano a não ver com bons olhos o reatamento das relações com os EUA. Afinal, os velhos líderes de suas respectivas comunidades, americana e cubana, tiravam sua força política e sua razão de viver do ódio recíproco e irreconciliável. Só mesmo a inércia do preconceito e o ressentimento do passado sustentavam o imobilismo. Para Cuba o embargo americano representava uma bandeira capaz de reunir o apoio de todos os países latino-americanos e, sobretudo, um excelente bode expiatório em cuja conta todos os males econômicos do país podiam ser debitados. Poderia ser custoso abrir mão deste grande álibi, já que os pequenos passos do gradualismo de Raúl não alteraram o curso negativo da economia cubana. É possível que mesmo Fidel tenha concordado com o irmão que já era tempo de buscar a normalização com os EUA.

Sem menosprezar a reabertura das respectivas embaixadas em Havana e Washington, em si um fato político muito relevante, força é considerar que o mais decisivo será o levantamento do embargo americano. O fulcro da análise prospectiva precisa ser o alcance desse fato para o futuro político, econômico e social de Cuba. Uma das razões para que o governo cubano se tenha empenhado na negociação com Washington é que o país está, como nos anos 1990, depois do colapso da União Soviética, à beira da falência, tendo já ficado claro que o gradualismo não reverteu o precário estado da economia cubana. O iminente desmoronamento da economia venezuelana, precipitado pela queda abrupta dos preços do petróleo, acrescenta um elemento dramático para Cuba. Como não foi possível concretizar uma melhoria sensível no nível de vida do povo cubano, o Partido Comunista achava-se cada vez mais no fio da navalha. Porém, entre uma abertura mais radical e a preservação da mão de ferro do partido e seu componente repressivo, o coração da oligarquia no poder certamente não balançou. A conclusão inescapável: vamos jogar a carta do diálogo com quem até então era o grande Satã, pois a aproximação com Barack Obama poderia ser apresentada, como está sendo, como uma vitória cubana que forçou Washington a um recuo enorme.

A sociedade cubana toma cada vez mais consciência da falência do modelo jurássico que a levou a um atraso só comparável ao dos países mais primitivos. Cortinas de ferro ou de bambu perderam sua eficácia com a globalização da informação. Raúl, mais aberto e realista que o irmão mais velho, parece ter percebido, como Tancredi, o sobrinho do príncipe de Salina no Gattopardo, que é "preciso que tudo mude para que tudo fique como está". Quais serão as consequências do levantamento do embargo comercial americano a Cuba? Sabendo que o fim do embargo ainda não é previsível, devem-se avaliar as consequências que essa medida poderá ocasionar, gradualmente, na cena política e econômica de Cuba.

Dizem alguns analistas que Raúl Castro concedeu muito pouco, enquanto Obama pôs na mesa seus melhores trunfos. Penso que essa é uma análise simplista, que serve à liderança cubana, pois apresenta a libertação por Washington dos espiões detidos pelo FBI como uma grande vitória. Uma questão tão grave não pode ser analisada com um placar de futebol. É provável que se as relações econômicas entre os dois vizinhos forem normalizadas, mesmo antes do fim do embargo afluirão para Cuba investimentos e atividades econômicas crescentes, que aumentarão o emprego e a renda das pessoas, ocasionando um grande crescimento do consumo, atualmente reprimidíssimo. Afinal, a distância entre Cuba e a Flórida é menor que entre Rio e São Paulo e os intercâmbios, que já são bilionários, só aumentarão. Uma sociedade assim liberta das amarras que a estrangulavam não deve mais aceitar a ideia de um controle totalitário, ainda que certamente não tolere o regresso a um status de colônia virtual americana, como na era Batista, liquidada em 1959.

Combinado com liberação do uso dos meios de comunicação e um acesso muito maior à internet, vai-se formar um enorme movimento de superação do modelo que há muito infelicita o povo cubano, tão simpático e tão parecido conosco. Nada disso ocorrerá da noite para o dia, mas certamente Raúl, o pragmático, sabia à partida que sua geração inevitavelmente sairia de cena e o modelo que sustentara seu poder por décadas se estava esgotando. Para a oligarquia do poder o desafio chave se chamará sobrevivência, ao menos nas aparências, em contraposição a uma débâcle comparável à dos regimes comunistas do Leste Europeu em fins da década de 1980. Para fugir deste pior pesadelo os dirigentes cubanos precisarão mostrar uma flexibilidade que até aqui renegavam.

Obama fez muito bem em descartar essa página negra que se havia tornado o repúdio radical a Cuba. Os EUA só ganham com isso. Grande vitoriosa, muito maior, é a causa mundial da democracia, da liberdade e dos direitos humanos. Começa agora um novo momento para Cuba. Novos horizontes se abrirão se o embargo for levantado. A liberdade resulta em progressos políticos, sociais e econômicos, uma vez rompidas as correntes do totalitarismo. Cuba terá seu próprio caminho, mas ele não obedecerá, apenas, ao desenho de suas atuais lideranças.

*Luiz Felipe Lampreia é sociólogo e diplomata. Foi ministro das Relações Exteriores no governo FHC 

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