O regresso do caudilho

Ele precisa parecer forte perante os seus seguidores. Mas precisa também comovê-los com as vicissitudes que enfrenta. Precisa mostrar que conserva nas mãos as rédeas do poder. Mas precisa também reforçar o seu entorno caso não possa firmar-se na sela ao longo da incerta jornada que precederá a campanha por mais um mandato em novembro do ano que vem - em meio aos crescentes problemas que assolam o seu país e pelos quais ele só tem a si mesmo para culpar.

, O Estado de S.Paulo

06 Julho 2011 | 00h00

Esses imperativos formam o pano de fundo da decisão do caudilho venezuelano Hugo Chávez de reaparecer em Caracas, depois de um mês em Cuba. Na ilha do seu ídolo Fidel Castro, segundo as versões oficiais insuscetíveis de confirmação, ele foi operado, primeiro, para a extração de um abscesso na região pélvica e, logo depois, para remover um tumor maligno, cuja localização e gravidade são mantidas em segredo. Assim como o tipo de tratamento a que vem sendo submetido e o prognóstico dos médicos que o atendem.

Discursando ao entardecer de anteontem para mais de 100 mil extasiados chavistas do seu palanque preferido - a sacada do Palácio Miraflores, sede do governo nacional -, o autocrata foi, tanto quanto lhe permitiu o fôlego, o de sempre. Uniformizado, cantou o Hino Nacional e proclamou que estar de volta ao "epicentro de Bolívar", na véspera do bicentenário da independência venezuelana conduzida pelo libertador, "é pura chama, pura vida". Mas falou apenas por brevíssimos (para os seus padrões) 30 minutos, com a voz já fraquejando no final, e guardou-se das costumeiras exibições de onipotência.

Seja para tocar o coração de seus adeptos, seja talvez por ter descoberto que até ele é mortal, o fato é que temperou o costumeiro triunfalismo com um misto de ponderação e otimismo. "Que ninguém pense que minha presença aqui significa que vencemos a batalha", advertiu, como se alguém acreditasse numa ficção do gênero. "Começamos a vencer o mal que se incubou no meu corpo, mas temos de seguir um estrito controle médico", informou, para terminar com duas palavras que têm tudo para ser o seu lema para manter o chavismo galvanizado: "Viveremos e venceremos".

Mas nem ele próprio sabe quando, se e em que medida recobrará as condições de governar. Entenda-se por isso não a capacidade nunca antes evidenciada de tomar decisões racionais para combater as mazelas do país - os descaminhos da economia, a inflação nas alturas, a criminalidade desabrida, a escassez de moradias e o racionamento de energia -, mas o seu formidável talento para fazer o povo achar que governa para ele. Se a saúde limitar a frequência e a intensidade dos seus exercícios populistas, ficará mais difícil para Chávez ofuscar as duras realidades que impôs aos venezuelanos e culpar por elas "o Império" e os sabotadores da Revolução Bolivariana.

Por via das dúvidas, ele trata de reforçar a retaguarda - o aparato político-militar que forma a espinha dorsal do chavismo e o ajuda a administrar as rivalidades no partido do regime, o PSUV. Daí o anúncio do vice-presidente nomeado Elías Jaua de que o chefe convocou, no máximo para hoje, uma reunião do Conselho de Ministros para "reorganizar o Gabinete". As especulações a respeito em Caracas vieram somar-se às incertezas sobre "o mal que se incubou" no organismo de Chávez e os seus possíveis desdobramentos - da recidiva que enfim o obrigaria a se licenciar, à superação que lhe permitiria voltar com a corda toda.

Para cimentar a lealdade da cúpula das Forças Armadas, ele poderia promover o seu comandante, Henry Rangel, a ministro da Defesa. Para manter a coesão dos seus aliados é que são elas. Chávez não tem um herdeiro ou sucedâneo natural. Jaua, o vice, tem a seu favor pertencer à velha guarda do chavismo. Mas falta-lhe a luz própria dos rivais Nicolás Maduro, o chanceler do país, e Adán Chávez, o mentor e irmão mais velho do caudilho, que governa o Estado de Barinas. Se ele for para a vice, será a importação do modelo cubano - com sinal trocado. Na ilha, foi o primogênito dos Castros, perto dos 85 anos, que cedeu lugar ao caçula, que acabou de fazer 80. Mas Adán Chávez, 58, é ideologicamente mais parecido com Fidel do que com Raúl.

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