O relatório da inflação não menciona o laxismo do BC

No capítulo da inflação, o Banco Central (BC) deixa de lado sua responsabilidade, por ter assumido nos últimos meses do ano uma posição bastante laxista.

, O Estado de S.Paulo

23 Dezembro 2010 | 00h00

Começou por dar prioridade à análise da conjuntura, ao seu índice (o IBC-Br), com isso, apesar dos sinais de retomada da inflação, usou a queda da atividade econômica como pretexto para não elevar a taxa básica de juros. Num segundo tempo, foi o uso de outros instrumentos de política monetária (restrição ao crédito) o pretexto para adiar uma revisão da Selic que, pelo Relatório de Inflação de dezembro, não deverá ser mais adiada na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).

O BC reconhece que a inflação voltou a subir neste ano, com o IPCA no acumulado do ano chegando a 5,2%. Não podemos menosprezar as dificuldades que as autoridades monetárias enfrentaram para tentar manter a inflação em 4,5%, que era a meta. Em suma, a economia brasileira viveu acima dos seus meios. Criou-se um poder aquisitivo artificial com aumento de salários (especialmente para os funcionários públicos), que não foi acompanhado por ganhos de produtividade; o déficit público contribuiu para aumentar a liquidez, que favoreceu o crescimento exagerado do crédito para as pessoas físicas e um sistema de subsídios para a indústria nacional (via BNDES), sem chegar a aumentar, como seria desejável, a Formação Bruta de Capital Fixo, que ficou muito abaixo do que seria necessário para acompanhar o crescimento atual do PIB. A pressão da demanda doméstica foi atendida graças a um aumento das importações que desequilibrou as contas externas, enquanto o pleno emprego já se transforma em fator inflacionário.

Ao analisar as perspectivas da inflação, os autores do relatório mostram-se bastante prudentes, com 5,9% para o IPCA em 2010 (projeção central), 4,8% em 2011 e 4,5% somente em 2012. Não menosprezam, porém, as incertezas que vêm nessa projeção. Estão dando prioridade à evolução dos preços das commodities e à elevação dos preços no atacado, que acarretam importante repercussão sobre os preços dos serviços. Fazem um ato de fé na vontade do governo de atingir o superávit primário incluído na Lei das Diretrizes Orçamentárias. Parece-nos, no entanto, que não estão levando na devida conta uma possível desvalorização do real, que teria forte impacto sobre os preços dos produtos importados.

A questão é saber se um dia não caberá ao Copom rever sua política monetária para que a Selic não impeça captação de recursos de longo prazo.

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