O 'Relatório de Inflação' reconhece sua ameaça

O 'Relatório de Inflação' reconhece sua ameaça

Consta que o último trabalho realizado pelo diretor do Banco Central (BC) Mário Mesquita, antes de apresentar sua demissão, como era previsto, foi a elaboração do Relatório de Inflação do 1.º trimestre de 2010. Qualquer que seja a validade dessa informação, não se pode negar que tem sua assinatura.

, O Estado de S.Paulo

01 Abril 2010 | 00h00

No seu capítulo principal, "Perspectivas para a Inflação", o Banco Central confirma a apreensão que se podia ler na última Ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), reconhece que sua expectativa para a inflação é de 5,10% e 4,70% para 2010 e 2011, respectivamente - isto é, acima da meta fixada pelo Conselho Monetário Nacional de 4,5% -, e reconhece ainda que a responsabilidade do Copom é de atuar para que ela volte à meta estabelecida.

Ao ler o relatório, não se encontra nenhuma alusão ao trabalho recentemente divulgado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) admitindo que, diante de dificuldades para cumprir a meta, que se aceite flexibilizá-la para combater os efeitos da recessão. Acontece que no Brasil, hoje, a ameaça de recessão foi afastada e, ao contrário, pode haver fatores capazes de criar desequilíbrios e tornar a inflação incontrolável.

Essa análise é colocada de modo hábil no relatório ao explicar como no ano passado foi possível controlar os fatores inflacionários, deixando evidente que alguns deles poderiam reaparecer em 2010. De fato, o cenário externo contempla uma recuperação da atividade econômica mundial que pode acarretar sensível aumento do preço das commodities.

Por outro lado, diante de uma demanda doméstica que continua muito robusta, preocupa o recuo na Formação Bruta de Capital Fixo, num período em que o governo vai aumentar seus investimentos. Curiosamente, o BC acredita que, mesmo assim, a meta fiscal do governo federal poderá ser cumprida, minimizando o efeito da campanha eleitoral que favorece gastos e não apenas os vinculados a investimentos, parecendo ignorar que o aumento das receitas é um convite a maior despesas.

O relatório reconhece a importância da expansão do crédito para alimentar a demanda, mas não parece que o Copom cogite reduzir esse fator, a não ser por uma elevação da taxa Selic, que poderá acontecer tarde demais.

A leitura do Relatório de Inflação reforça a impressão suscitada pela última Ata do Copom, que dava como certa a elevação da taxa básica de juros. Nessa perspectiva, pode-se entender a preocupação do presidente Lula, caso seja obrigado a mudar a composição do Copom.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.