O repique da inflação

Contrariando as profecias do governo, a inflação deu um repique, voltou a subir e atingiu 0,25% em agosto, ponto inicial de uma nova escalada, segundo projeções do setor financeiro. A taxa prevista para setembro é 0,41% e o ano será fechado, pelos cálculos correntes, com um resultado acima de 6%, pouco pior que o de 2013, de 5,91%. Como no ano passado, a inflação declinou durante algum tempo e em seguida ganhou impulso. Neste ano, o ponto mais baixo, de 0,01%, foi atingido em julho. Na quarta-feira, os dirigentes do Banco Central (BC) decidiram por unanimidade manter em 11% a taxa básica de juros, a Selic, seu principal instrumento de política anti-inflacionária. Foram prudentes e tomaram a decisão mais segura - criticada, como sempre, por líderes empresariais defensores da tolerância à inflação.

O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2014 | 02h04

O número oficial de agosto foi pouco maior que o previsto, uma semana antes, pelos economistas consultados pelo BC na pesquisa Focus. A mediana de suas estimativas havia ficado em 0,22%. Talvez algum ministro ou funcionário do governo acreditasse, de fato, numa forte redução das pressões inflacionárias, depois da acomodação dos indicadores a partir de maio. No mercado financeiro e nas consultorias, a maior parte dos economistas previu uma evolução parecida com a de 2013, quando a inflação chegou a 0,03% em julho e em seguida embicou para cima.

Afinal, nenhum grande fator inflacionário foi eliminado, mesmo com a elevação dos juros em abril. Os consumidores ficaram mais cautelosos e menos dispostos, mas o crédito permaneceu em expansão, aumentos salariais continuaram superando os ganhos de produtividade e, acima de tudo, as contas públicas pioraram a cada mês, porque a gastança prosseguiu e a receita decepcionou.

A queda dos preços por atacado foi apontada pelos mais otimistas como um prenúncio de inflação domada. Mas previsões desse tipo são geralmente baseadas em uma confusão. Oscilações de mercado podem pressionar alguns preços por algum tempo, mas só alimentam a espiral inflacionária quando há condições especiais para isso - excesso de crédito ou de gasto público, por exemplo. Errou, no passado recente, quem atribuiu a inflação brasileira à elevação dos preços das commodities no mercado internacional. Essa elevação afetou também outros países, mas poucos tiveram inflação tão alta quanto a do Brasil. Errou também - e a explicação é a mesma - quem previu o fim das pressões inflacionárias quando os preços das commodities caíram por alguns meses.

De julho para agosto a inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), passou de 0,01% para 0,25%, num salto considerável, embora o custo de alimentos e bebidas tenha diminuído 0,15%. O custo do vestuário também recuou, com variação negativa de 0,15%. Os outros sete grandes componentes do índice aumentaram.

O quadro parece menos mau quando se examina a porcentagem de itens com variação positiva. Esse indicador, conhecido como coeficiente de difusão, diminuiu de 59% em julho para 55% em agosto. Mas isso se explica basicamente pela queda dos preços de muitos alimentos e bebidas e também do vestuário. No caso dos alimentos, só a lista das "principais quedas" apontadas no informe oficial do IBGE inclui 24 produtos. Seria irrealista apostar na continuação dessa tendência ainda por muito tempo.

Em agosto, a alta do IPCA acumulada em 12 meses bateu em 6,51% e superou pela segunda vez no ano o limite de tolerância, de 6,5%. O governo tem prometido manter a inflação dentro dessa margem. A insistência nessa promessa, e em nada mais sério, confirma a desistência de buscar a meta efetiva, de 4,5%. A meta real do governo tem sido e continua a ser qualquer número até o limite de 6,5%. É um número muito alto pelos padrões internacionais.

Se depender do governo e de seus interesses eleitorais, haverá muito combustível para a inflação. Desde agosto o Tesouro abandonou o precário represamento e voltou a soltar grandes volumes de dinheiro para os programas oficiais. É hora de investir em votos.

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