O retorno em busca de trabalho

O balanço de pagamentos mostra em que medida a retração das economias dos países desenvolvidos tem afetado milhares de brasileiros que emigraram. O Itamaraty ainda não concluiu um levantamento sobre o número de compatriotas que vivem hoje no exterior, mas as chamadas transferências unilaterais que contabilizam as remessas para o País de brasileiros que trabalham no exterior foram de US$ 1,522 bilhão no primeiro semestre deste ano, um recuo de 45,4% em relação ao mesmo período de 2010 (US$ 2,788 bilhões).

, O Estado de S.Paulo

14 Agosto 2011 | 00h00

Essa é uma consequência direta do encolhimento do mercado de trabalho para os emigrantes, que reduz ou impossibilita a transferência de parte dos seus rendimentos para as famílias no Brasil. A crise de crédito de 2008/2009 afetou os emigrantes e, com a estagnação subsequente da economia dos países industrializados, aumenta o movimento de retorno de milhares de pessoas que foram buscar melhores oportunidades lá fora.

Como mostrou reportagem do Estado (7/8), com foco apenas nos países da Europa e no Japão, sem se estender aos Estados Unidos, onde também é muito grande a colônia de brasileiros, está havendo uma reversão de um movimento migratório que teve grande impulso a partir da "década perdida de 1980". O Itamaraty - que nos últimos anos tem dedicado especial atenção à diáspora brasileira - chegou a elaborar uma cartilha para ajudar o regresso ao País de cidadãos que ficaram até mesmo sem dinheiro para pagar a passagem de volta.

Nesse caso, se não contarem com a ajuda de governos dos países hospedeiros ou se não obtiverem auxílio de parentes e amigos por intermédio do Itamaraty, esses emigrantes têm de recorrer à Organização Internacional de Migrações (OIM) para cobrir suas despesas com o retorno à pátria. Em Portugal, por exemplo, 315 brasileiros tiveram suas passagens compradas pela entidade em 2009, número que saltou para 562 em 2010 e que se mantém elevado este ano.

Estes são casos extremos, mas o fato é que uma parcela cada vez maior dos mais de 800 mil brasileiros que estão na Europa está voltando ao País por não encontrar trabalho. A exceção são os estudantes. Naturalmente, quanto mais alto o desemprego em um país, maior é a dificuldade para estrangeiros obterem colocação, mesmo em setores que exigem baixa qualificação. Na Espanha, enquanto a taxa de desemprego para os naturais do país é de 20%, ela sobe para 35% em se tratando de trabalhadores estrangeiros. Não é diferente a situação na Irlanda, que, na virada do milênio, exibia a economia em mais rápido crescimento de toda a União Europeia (UE). Em Gort, no Oeste daquele país, os brasileiros chegaram a constituir 40% de uma população de mais de 4 mil pessoas. Hoje, essa participação caiu para 25% e tende a diminuir ainda mais.

O Japão também deixou de ser a meca dos nisseis e de seus descendentes. Até 2008, viviam e trabalhavam no Japão cerca de 320 mil decasséguis de origem brasileira. O número, hoje, não passa de 260 mil.

Não é de estranhar que muitos brasileiros tenham se enraizado em países estrangeiros, onde seus filhos estão sendo educados e que estão decididos a permanecer, apesar das atuais vicissitudes. E sempre haverá quem, por motivo, decida refazer a vida em país estrangeiro. Mas, na medida em que a economia nacional exiba um crescimento mais acelerado, a evasão de brasileiros tende a refluir.

Para as contas externas do Brasil, a queda nas remessas de emigrantes não representa problema, em face do ingresso excepcional de recursos externos. De outro lado, o País pode ganhar muito com a reabsorção pelo mercado interno de brasileiros com experiência de trabalho no exterior. São pessoas geralmente com espírito empreendedor, que adquiriram ou aperfeiçoaram conhecimentos profissionais e que já dominam razoavelmente línguas estrangeiras. Em uma fase de escassez de mão de obra em muitos setores, será muito útil se o Ministério do Trabalho, como já se cogita, instituir um programa para facilitar a reinserção desses cidadãos no mercado de trabalho no País.

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