O risco das superendividadas

Novo alerta: a crise bateu com força também nas grandes empresas, tornando-as menos capazes de pagar suas dívidas

O Estado de S.Paulo

27 Setembro 2016 | 03h03

Novo alerta: a crise bateu com força também nas grandes empresas, tornando-as menos capazes de pagar suas dívidas. A recuperação da economia só deve começar para valer no próximo ano, com uma lenta retomada dos negócios. Muitas companhias têm procurado renegociar os compromissos com os credores e nem todas conseguem escapar dos pedidos de recuperação judicial. Com juros muito altos, menor acesso ao crédito e receita deprimida pela recessão, as demissões e cortes de custos têm sido insuficientes para restabelecer a segurança financeira. O risco de quebras assombra tanto essas empresas quanto milhares de outras – principalmente fornecedoras – dependentes da prosperidade das maiores companhias. Quando as maiores ficam sem fôlego financeiro, surge o chamado risco sistêmico, porque qualquer desastre pode espalhar-se facilmente em ondas de choque.

A ameaça impõe um desafio tanto para o governo, empenhado em puxar o Brasil para fora do atoleiro, como para os parlamentares. A estes cabe apreciar e votar boa parte das medidas necessárias para as correções dos maiores desajustes, a começar pelo desequilíbrio das contas públicas.

Um levantamento sobre as dívidas de grandes empresas fez soar o novo alarme. As dificuldades foram mostradas em recente relatório do Centro de Estudos do Instituto Brasileiro do Mercado de Capitais (Cemec). Segundo análise das contas de 605 grandes firmas, a geração de caixa tem sido suficiente, em média, só para cobrir 58% das despesas financeiras. Mal tem bastado, em muitos casos, para os juros.

Ainda farto em 2013, o crédito secou a partir do ano seguinte. O acesso ao financiamento internacional também ficou mais difícil para muitas companhias, por causa do rebaixamento da nota brasileira pelas principais agências de classificação de risco. Além disso, as dívidas em moeda estrangeira cresceram com a desvalorização do real. O financiamento externo poderá ficar ainda mais complicado se o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, aumentar de novo os juros básicos. Essa medida poderá ao mesmo tempo tornar o mercado menos acessível e provocar uma nova alta do dólar, inflando mais uma vez a dívida empresarial.

O endividamento das empresas, particularmente perigoso no caso das maiores, parece um bom argumento a favor de um afrouxamento da política monetária, com redução dos juros brasileiros ainda antes do fim do ano. Os dirigentes do Banco Central (BC) com certeza percebem a conveniência de iniciar o corte da taxa básica e de tomar quaisquer medidas necessárias para estimular a oferta de crédito. Mas a primeira função do BC é cuidar da estabilidade da moeda. O Comitê de Política Monetária, formado por dirigentes do BC, terá de levar em conta pelo menos dois fatores – a inflação ainda alta e as perspectivas de conserto das contas públicas.

O segundo fator, neste momento, parece o mais problemático. Enquanto houver grande incerteza sobre a recuperação do Orçamento nos próximos dois anos, ninguém poderá apostar com alguma segurança num firme declínio da inflação. Mas o conserto das finanças públicas depende apenas em parte do Executivo. O primeiro grande passo para a implementação do ajuste deve ser a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 241. Essa proposta fixa um teto para elevação do gasto público e fornece ao governo um apoio preciso para a restauração gradativa da disciplina fiscal.

Se os parlamentares forem capazes de entender e de assumir sua responsabilidade na reconstrução da economia, tratarão de aprovar com rapidez aquela PEC e todas as medidas necessárias para a melhora das contas públicas. Isso facilitará o começo da redução dos juros, do reequilíbrio financeiro das empresas e da retomada do crescimento. Se as grandes companhias puderem ganhar algum fôlego, o Brasil já será poupado de sérios problemas e, talvez, de um novo mergulho na crise. Fará a coisa certa quem estiver mais interessado no País que nas conveniências pessoais ou partidárias.

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