O risco de motins em série

Se em cerca de três semanas o motim da PM capixaba deixou um saldo de 181 mortos, não é difícil imaginar o que aconteceria com sua repetição em cadeia e a perda de controle da situação pelas autoridades

O Estado de S.Paulo

02 Março 2017 | 03h03

Com o fim do motim da Polícia Militar (PM) do Espírito Santo – no sábado passado o comandante-geral da corporação, coronel Nylton Rodrigues, anunciou que finalmente todo o efetivo tinha voltado ao trabalho –, é preciso fazer uma análise serena do que realmente se passou, quem fomentou e liderou o movimento criminoso de insubordinação. E, o que é igualmente importante, investigar as suspeitas levantadas sobre suas possíveis ligações com movimentos semelhantes ocorridos em outros Estados.

Um passo importante nesse sentido foi a decretação, pela Justiça Militar, da prisão de três PMs da ativa – o tenente-coronel Carlos Alberto Foresti, o sargento Aurélio Robson Fonseca da Silva e o soldado Maxsom Luiz da Conceição – e um da reserva, o capitão Lucínio Castelo de Assumção, tidos como os principais responsáveis pelo motim. Dos quatro, apenas o soldado Conceição ainda não se entregou e é considerado foragido. O capitão Assumção – que chegou a ser detido no sábado passado por policiais do Batalhão da PM de Vila Velha, mas conseguiu escapar – se entregou na terça-feira, dia 28.

Ex-deputado federal, ele é considerado um elemento importante na investigação, porque, apesar de se encontrar na reserva, mantém ligações com o pessoal da ativa e exerce forte influência sobre ele. Prova disso seria, não só sua presença no quartéis durante o movimento, como a facilidade com que fugiu em Vila Velha para só se entregar quando lhe convinha, dias depois. Pesa sobre o capitão Assumção a forte suspeita de ter incitado os PMs a se rebelar – usando suas esposas para encenar um cerco aos quartéis para “impedi-los” de sair – por meio da divulgação de áudios e vídeos pelas redes sociais.

De acordo com reportagem do Estado, um relatório da Polícia Federal (PF), que está investigando a origem do movimento, cita, além de Assumção, também o deputado Carlos Manato (SD-ES), o que indicaria a profundidade e a amplitude do motim. Manato nega qualquer envolvimento e é de esperar que a PF continue as investigações para pôr a limpo essa questão, tendo em vista a gravidade da possível implicação nela de um parlamentar.

Afirmações feitas pelo secretário de Controle e Transparência do Espírito Santo, Eugênio Ricas, reforçam a necessidade de apurar a fundo os métodos empregados pelos amotinados, assim como suas possíveis ligações com pessoas estranhas à corporação. Segundo ele, seu Estado viveu uma situação de “terrorismo digital”, causada pela disseminação de informações falsas com o objetivo de deixar a população em pânico, paralisar o transporte público e fechar o comércio nas principais cidades, a começar pela capital, Vitória, o que de fato aconteceu durante os quase 20 dias do motim.

Até dados pessoais de Ricas e seus familiares foram divulgados por e-mails: “Fica evidente a ousadia desse grupo e do que eles são capazes”. Tão ou mais importante do que tudo isso é a afirmação do secretário de que 80% das mensagens que fomentaram o “terrorismo” foram divulgadas por pessoas e redes de fora do Estado.

Isso levanta suspeita da existência de uma articulação entre os movimentos de rebeldia das PMs de vários Estados, dos quais o Espírito Santo foi até agora o mais grave. No Rio de Janeiro, para citar apenas o exemplo mais inquietante, pela importância do Estado e os sérios problemas de segurança pública que enfrenta, assistiu-se a uma tentativa – que felizmente não foi adiante – de repetição do motim capixaba, com a mesma encenação de esposas de PMs cercando quartéis.

Essa suspeita precisa ser investigada a fundo por cada um dos Estados, com a ajuda da Polícia Federal e dos órgãos de inteligência, pelo importante e evidente risco que essa articulação representa para a segurança pública em todo o País. Se em cerca de três semanas o motim da PM capixaba deixou um saldo de 181 mortos, não é difícil imaginar o que aconteceria com sua repetição em cadeia e a perda de controle da situação pelas autoridades.

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