O risco do petróleo

Alguns anos serão necessários para que possam ser medidos com precisão os prejuízos com o vazamento de cerca de 5 milhões de barris de petróleo, causado pelo afundamento da plataforma Deepwater Horizon, operada pela BP no Golfo do México. Noticia-se agora que ele foi estancado, mas os efeitos econômicos globais daquele que é considerado o maior desastre ambiental da história dos EUA ainda se fazem sentir. Como era previsível, os prêmios de seguros para exploração de petróleo offshore estão em ascensão, estimando-se que podem aumentar até 50%, e os investidores no setor petrolífero estão inquietos.

, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2010 | 00h00

Nessa fase, as grandes seguradoras vêm procedendo a uma reavaliação de riscos, evitando fechar ou renovar contratos com operadoras de sondas e plataformas de petróleo. Isso afeta também empresas que operam na costa brasileira. Pela praxe, as apólices vinham sendo renovadas por um ano, mas agora os prazos são mais curtos.

A questão não se resume a preços, mas abrange também a adoção de planos adequados de prevenção de acidentes, hoje considerados indispensáveis para a contratação de apólices ambientais. Uma das críticas que se fazem à BP é de que não tinha um plano de ação para emergências ou seguro de responsabilidade social ou civil. Tanto assim que a empresa teve que assumir o compromisso de pagar indenizações no total de US$ 20 bilhões para cobrir danos ambientais e prejuízos causados a indivíduos ou empresas pelo vazamento. Isso não eximiu as seguradoras de vultosas perdas, estimadas entre US$ 3 bilhões e US$ 5 bilhões.

Além disso, em razão de pressões partidas não só de grupos ambientalistas, mas da população em geral, a legislação dos EUA para exploração de petróleo em alto-mar está em processo de alteração, havendo um projeto com esse objetivo em tramitação no Congresso. Como as normas deverão requerer mais controle, os prêmios de seguros devem ser ajustados. De fato, é possível que a alta dos custos dos seguros absorva os ganhos obtidos com a queda de 20% no preço de plataformas no mercado internacional em seguida ao acidente do Golfo do México.

Em face das perdas sofridas pela BP, com impacto direto sobre suas ações, cujas cotações caíram à metade desde 20 de abril, os investidores se tornaram também mais cautelosos e desejam saber se os riscos das companhias petrolíferas em que investem estão adequadamente cobertos. Grandes fundos de pensão britânicos e americanos sofreram pesados prejuízos com a despencada das ações da BP, chegando alguns deles a processar judicialmente a companhia.

Na realidade, ninguém mais confia na eficiência de equipamentos ou nos meios empregados para conter vazamentos de petróleo. Na verdade, ainda não se sabe com exatidão a causa da falha do equipamento da BP. Muitos testes devem ainda ser realizados até que se chegue a conclusões satisfatórias, que possam ser utilizadas como ensinamentos para evitar novos acidentes.

Enquanto isso, noticia o The New York Times (5/8), um grupo de 50 investidores institucionais, incluindo grandes fundos de pensão, coordenado pela Ceres, um instituição não lucrativa, enviou pedidos de esclarecimentos a grandes seguradoras, inquirindo-as sobre sua exposição ao risco e os ajustes que estão procedendo em vista do acidente no Golfo do México. Cartas do mesmo teor foram enviadas a companhias petrolíferas que atuam no mundo. As principais questões que preocupam esses investidores versam sobre o montante aplicado em tecnologia para exploração de petróleo offshore, os planos de contingência para o caso de desastres, as lições aprendidas com o vazamento do Golfo do México, as regras para contratação e monitoramento de concessionários, as normas de governança corporativa em vigor, como a influência da diretoria em decisões quanto à segurança das operações.

A Petrobrás não figura entre as petroleiras destinatárias destes pedidos de esclarecimentos listadas pelo jornal. Sendo hoje o Brasil o líder na perfuração de poços de petróleo em alto-mar, é de interesse da estatal - e principalmente do interesse do País e dos investidores - que responda publicamente a esses quesitos.

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