O risco dos juros americanos

A maior economia do mundo, a americana, cresceu no segundo trimestre em ritmo equivalente a 3,9% ao ano – uma boa notícia para a maior parte dos países, mas um motivo a mais de preocupação para o governo brasileiro. Um dia antes de ser divulgado esse resultado, a presidente do Federal Reserve (Fed), Janet Yellen, havia defendido, num longo pronunciamento, a elevação dos juros básicos ainda neste ano. Diante da firme recuperação dos negócios, da rápida criação de empregos e do crescente risco de pressões inflacionárias, convém iniciar em breve o aperto monetário, afirmou. A hipótese de uma alta de juros até o fim do ano havia sido reforçada há poucos dias, depois da última reunião do Comitê de Mercado Aberto do Fed, responsável pela orientação política da instituição. As palavras de Yellen reforçam essa possibilidade. Com esse aperto, o acesso ao mercado financeiro poderá ficar mais difícil para governos, como o do Brasil, com as contas em muito mau estado.

O Estado de S. Paulo

26 Setembro 2015 | 03h00

A mudança de orientação do Fed será quase certamente muito lenta. Os juros básicos, hoje na faixa de zero a 0,25% ao ano, deverão começar a subir lentamente. A inflação americana ainda é baixa, mas isso se explica, segundo Yellen, por alguns fatores especiais, como a valorização do dólar, a queda do preço do petróleo e o barateamento das importações. Em algum momento esses fatores perderão força, ou deixarão de existir, e a partir daí os preços ao consumidor deverão aumentar gradualmente. É preciso, de acordo com a presidente do Fed, orientar a política monetária para desestimular ações especulativas e para acompanhar as mudanças nas condições de formação de preços. Isso evitará a necessidade de um ajuste abrupto, quando a inflação, hoje muito baixa, atingir a meta de 2% ao ano.

Se for seguida a estratégia proposta no discurso de Yellen, o banco central americano conseguirá, muito provavelmente, antecipar-se aos fatos e administrar um ajuste dos preços a um ritmo compatível com uma economia bem mais ativa que a dos anos anteriores e com nível de emprego bem mais alto. O desemprego nos Estados Unidos, de 5,1% da força de trabalho, já é baixo e poderá ainda reduzir-se nos próximos meses. As novas condições do mercado de trabalho refletem-se claramente nas condições do consumo, com crescimento anualizado de 3,6%, e da construção residencial, com aumento, no segundo trimestre, equivalente a 9,3% ao ano.

Segundo analistas, a expansão econômica no terceiro trimestre deve estar sendo menor que no segundo, por causa do volume remanescente de estoques industriais. Isso é insuficiente para caracterizar uma alteração de tendência, mas, de toda forma, os membros do comitê político do Fed examinarão cada novo número antes de anunciar uma primeira elevação dos juros básicos.

Para a maior parte dos países, o vigor demonstrado pela economia americana é uma excelente notícia, porque indica a possibilidade de maiores exportações para a economia mais poderosa do mundo. Também o Brasil pode beneficiar-se da prosperidade nos Estados Unidos, importante mercado para bens industriais. 

O benefício seria maior, certamente, se as indústrias brasileiras fossem hoje mais competitivas, e ainda mais sensível se houvesse um acordo de livre-comércio entre os dois países. Mas a política brasileira trocou a aposta nos acordos e na busca da competitividade pela dependência em relação ao mercado chinês. Mais de 80% das exportações do Brasil para esse mercado correspondem a produtos básicos – e, além disso, a economia chinesa está em desaceleração.

O lado negativo da recuperação americana, a iminência da alta de juros, impõe ao governo brasileiro urgência na implantação do ajuste das contas públicas. Se o esforço for suficiente, as autoridades conseguirão escapar do pior dos mundos – um novo rebaixamento da nota de crédito num momento de aperto do mercado financeiro internacional. Seu primeiro desafio será neutralizar a própria vocação para trapalhadas políticas.

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