O sabor da estação

A pouco mais de um ano das eleições municipais de 2012, a construção da candidatura do ministro da Educação, Fernando Haddad, a prefeito de São Paulo já deixou de ser uma questão de economia interna do seu partido, o PT, onde a senadora Marta Suplicy vê encolherem as suas chances de se opor ao rolo compressor acionado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em defesa de seu protegido.

O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2011 | 03h05

Numa prematura ofensiva de propaganda política, o governo federal passou a inserir na programação de rádio e TV spots de louvação ao que seriam os êxitos da pasta de Haddad em satisfazer demandas populares na área educacional e anunciar mais do mesmo para o futuro próximo. É uma operação malandra: os supostos feitos e os presumíveis projetos, apresentados com uma profusão de números destinados, obviamente, a emprestar-lhes credibilidade, não têm localização definida no território nacional, mas é como se o seu endereço fosse o Município de São Paulo.

A jogada é articulada para preparar o eleitorado paulistano para fazer uma inexorável conta de dois mais dois no devido tempo: quando começar efetivamente a campanha na mídia eletrônica, o eleitor terá elementos de recall para associar a figura do candidato petista (com toda a probabilidade Fernando Haddad) ao que lhe foi mostrado como prova do dinamismo e das políticas voltadas para os mais pobres de um dos principais Ministérios - que, por feliz coincidência, estava sob o comando do aspirante ao governo da capital paulista.

O resultado da conta armada pelos marqueteiros só poderia ser a conclusão de que alguém com as qualidades e o desempenho evidenciados num setor estratégico da administração federal, de mais a mais jovem e telegênico, tem tudo para repetir na gestão do Município os êxitos que obteve na pasta da Educação. Se o homem implantou mais de 400 creches e se comprometeu com a implantação do dobro disso - a publicidade não diz onde, mas por que não seria por estas nossas bandas? -, eis o melhor prefeito que o voto do povo pode dar a São Paulo.

Ainda não há de ter saído da memória dos brasileiros, ou daqueles mais atentos à manipulação da opinião pública pelos donos do poder, o que o então presidente Lula fez, ao arrepio da ética política, quando não da legislação eleitoral, para tornar conhecida da grande massa a ministra que escolhera candidata à sua sucessão - e que, além de totalmente desconhecida pelo povão, tinha contra si uma personalidade não propriamente cativante.

Detalhes à parte, é o que a presidente Dilma Rousseff, em dobradinha com o seu patrono, deu de fazer com Haddad, levando-o para cima e para baixo em eventos concebidos para isso mesmo e destinados ao noticiário das grandes redes de TV. Como diriam os publicitários americanos, ele se tornou o sabor da estação.

A mal disfarçada campanha eleitoral plantada na mídia eletrônica complementa o arranjo, cujo objetivo imediato é resgatar o ministro da rabeira em que foi exibido na primeira grande pesquisa sobre a intenção de voto dos paulistanos no ano que vem. Segundo o Datafolha, ele reúne a preferência de não mais de 2% dos entrevistados, enquanto Marta Suplicy se situa na faixa histórica de 30%. A boa notícia para Haddad são os 40% que se disseram inclinados a votar em qualquer candidato apoiado por Lula. O que, aliás, parece legitimar a pretensão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de ser o Grande Eleitor na disputa paulistana. Provavelmente com razão, ele acha que só um nome novo poderá devolver ao Partido dos Trabalhadores a Prefeitura da capital (e também a de Campinas, entre outras cidades que considera prioritárias no Estado).

Dentro do partido, o ministro acaba de fincar um bastião importante. Sob óbvia inspiração lulista, a corrente majoritária "Construindo um novo Brasil" (CNB) declarou segunda-feira apoio à pré-candidatura Haddad. Ele próprio pertence à ala "Mensagem ao Partido". A decisão foi tomada numa reunião de que participaram cerca de 60 líderes petistas. Marta, que integra a facção, não foi convidada. Com isso, minguaram as chances de realização de prévias para a escolha do candidato - como ambicionava Marta.

E o bumbo do governo em torno de Haddad, o ministro das creches, ressoará cada vez mais.

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