O secreto X da questão

Todo despertar tardio traz em si o germe tresloucado do fanatismo

Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

03 Fevereiro 2017 | 03h00

A degradação da chamada “elite governante”, transformada em bando criminoso amparado na formalidade da política e do poder econômico-financeiro, fez-se tão visível que cabe, agora, identificar suas origens profundas. A recente prisão de Eike Batista, por exemplo, é apenas outro degrau da monumental escadaria de corrupção com que nos deparamos a partir do “mensalão”.

Aí, todos começamos a perder a inocência. Logo a Lava Jato abriu portas inesperadas e revelou que a podridão existente era (e é) muito maior do que todo o horror que intuíamos.

Desde então, cada investigação amplia a anterior em dimensão e profundidade, como se o horror fosse infinito. Do bilionário assalto à Petrobrás, comandado pelas maiores empresas de obras do País e pelo trio PT-PMDB-PP, pulamos para o conluio envolvendo o ex-governador fluminense Sérgio Cabral Filho e Eike Batista, até há bem pouco apontado como “exemplo” de capitalista ousado e inovador. É exatamente aí que reside o X da questão. Não o da letra que identificava o fugaz império de US$ 30 bilhões com que Eike se apresentava como um dos homens mais ricos do planeta, mas o da incógnita algébrica sobre a origem da riqueza em que se baseou nossa economia (ou parte dela) até aqui.

Esse capitalismo sórdido, enraizado nos favores arrancados do Estado por meio de corrupção e chantagem, nada tem que ver com o daqueles empreendedores que correram (ou correm) riscos e sacrifícios, ou que assumem seus erros e deslizes. As “delações premiadas” dos dirigentes da Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS e outras grandes empreiteiras mostraram que – acima da visão empreendedora – viceja o espírito de máfia. O “grande padrinho” torna-se “chefão absoluto” ao se escorar no Estado. Ou ao se agarrar no conjunto de governos ocupados por políticos transformados em simples servidores ou reles servos das empresas.

Não se fale de “interesse público”, expressão usual nos políticos, mas utilizada quase sempre como biombo para ocultar grandes empreendimentos de suspeitosa utilidade ou de escasso proveito para a sociedade. Ou que escondem sua inutilidade no tamanho da obra. O conluio corrupto aplica aí, então, o simplório e dadivoso princípio do “quanto mais caro, melhor”. Sim, pois quanto maior for o gasto público, mais extensos serão o lucro da empresa e a propina correspondente.

Esse ardil criminoso do nosso bizarro “capitalismo de resultados” é antigo e até se tornou norma na atividade pública. Nos tempos ditatoriais era voz corrente que o custo da ponte Rio-Niterói equivalia a construir um viaduto colossal da Serra do Mar, no Atlântico, aos Andes, no Pacífico. Eram, porém, tempos sem imprensa livre nem Ministério Público ou juízes independentes e nada se investigava. Tudo se abafava e a corrupção se extraviava no silêncio.

Demoramos a perder o medo e a entender que a denúncia do abuso era uma conquista virtuosa, não uma insultuosa delação de “dedo-duro”. Com a Constituição de 1988 nos vimos amparados em “direitos” e despertamos para o significado das liberdades democráticas. Todo despertar tardio, porém, traz em si o germe tresloucado do fanatismo, e nos dividimos no Brasil em pequenas e acérrimas lutas tribais em defesa de nossos ídolos de pés de barro, sem perceber o que escondiam no caminhar.

Nos tempos de Lula da Silva em Brasília contava-se (como se fosse parte do cotidiano político) que duas pessoas tinham entrada livre ao gabinete presidencial, a qualquer hora, mesmo com chuvas e trovoadas: o ex-ministro Delfim Netto e o empresário Eike Batista.

Cada um deles sintetizava o deslumbramento de Lula com o poder. Delfim, “o gordinho sinistro da ditadura”, como o chamavam os antigos militantes sindicais, por um lado, e, por outro, o multimilionário Eike, candidato a “homem mais rico do planeta”, davam ao governo um tom aberto e colorido e faziam o então presidente se sentir tão poderoso quanto um deles havia sido e o outro pretendia ser.

Era o tempo em que Lula se jactava de ter feito os bancos lucrarem “mais do que nunca na História”. Paralelamente, Eike Batista obtinha bilionários financiamentos do BNDES para todo tipo de empreendimento do seu Império X. Quanto mais megalômano o projeto, melhor e mais fácil, a juro mais baixo e prazo mais longo.

Com os investimentos do banco estatal de desenvolvimento do Brasil, Eike entrou para a lista internacional que a revista Forbes reserva às exclusivas “maiores fortunas do mundo”, ao lado de extravagantes xeques árabes. E aqui, habituados a macaquices, todos nós festejamos e começamos a nos preparar para ter outro “campeão do mundo” além daquele que a Copa de 2014 nos daria se a Alemanha não nos tivesse tirado da estrada.

Tudo parecia calmo na Petrobrás naqueles anos, mesmo com a saída de alguns dos técnicos mais brilhantes, seduzidos pelos salários que Eike lhes oferecia (com dinheiro do BNDES) no seu X de empresas.

John Kenneth Galbraith, assessor do presidente Roosevelt nos anos duros da 2.ª Guerra Mundial, dizia que “os políticos são exímios na arte de representar”. Mas entre nós, no Brasil, foram além – fizeram “escola” e espalharam seus germes (ou vírus) por outras áreas sociais. Hoje magos e artistas pululam no dia a dia. Ocupam o poder na área pública ou privada, simulando tudo e semeando desconfianças.

Quando a realidade é escondida e tudo se torna subterrâneo, a fantasia e a invencionice se multiplicam, passando a ser “mais verossímeis” do que a própria verdade. Nesse emaranhado, ninguém, por exemplo, acreditará que o ministro Teori Zavascki morreu num acidente, por mais que todos os indícios levem a isso e se comprove que o mau tempo foi o vilão, pois hoje se desconfia de tudo o que venha “de cima”.

Enquanto a simulação comandar o conluio político-empresarial, jamais chegaremos ao X da questão.

* JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA EM 2000 E 2005

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